Tantas peles encarnei na vida ...”19. Assim o ex-ministro da Educação e da Casa Civil (gov.
João Goulart)20, ex-vice-governador (de Brizola) e senador do RJ, assessor e amigo de
Salvador Allende (para quem escrevia discursos presidenciais)21 e membro da ABL resume sua
fabulosa vida.
Darcy não é produto feliz do acaso. Fez parte da “geração mineira de 1945”, com Paulo
Mendes Campos (1922-91), Fernando Sabino (1923-2004), Otto Lara Resende (1922-92),
Murilo Rubião (1916-91), Helio Pelegrino (1924-88), Francisco Iglésias (1923-99), Autran
Dourado (1926-2012), Celso Brant (1920-2004), “todos revolucionários à sua maneira,
sobretudo através da literatura”22. Esta geração, por sua vez, é fruto da “geração modernistas
de Minas Gerais” de 1920/30: Carlos Drummond de Andrade (1902-87), Gustavo Capanema
(1900-85); Juscelino Kubitschek (1902-76)23; Afonso Arinos de Melo Franco (1905-90),
Guimarães Rosa (1908-67).
Nascido em Montes Claros em 1922, “capital” do Norte de Minas, deslocou-se aos 17 anos
para estudar Medicina em Belo Horizonte24 (cursará até o 4 ano), engajando-se então na
militância do Partido Comunista Brasileiro (ocasião em que devora “A origem da família, da
propriedade privada e do Estado”25, de F. Engels)26. DR é fruto da qualidade do ecossistema
cultural da elite intelectual mineira, mas dista do estereótipo da mineirice27: a incontida paixão,
irreverência e um “linguajar nada parcimonioso” marcam toda sua dionisíaca trajetória, a ponto
19 2022: 347.
20
Sua atuação no governo Goulart, em conjunto com Celso Furtado, foi caraterizada como
“reformismo-desenvolvimentista” por Carlos Guilherme Motta (1986: 29.
21
Em 1971 Darcy vai para o Chile, a convite de Salvador Allende. No onze de setembro de
1973 ele se encontrava morando no Peru, para onde tinha ido havia poucos meses. O general
Velasco Alvarado, então Presidente do Peru, convidou Darcy para colaborar com seu governo
“nacionalista-modernizador”.
22 Schwartzman, 2021: 73.
23
É pelas mãos de Juscelino que DR será alçado para o cenário nacional, incumbido de
conceber uma universidade na nova capital, Brasília.
24 “Três anos de Belo Horizonte me haviam transfigurado. (...) Nestes anos, JK, prefeito de BH,
edificava o conjunto da Pampulha. O que ele fazia era tão novo, diferente e espantoso que
assustava os mineiros e por isso mesmo me entusiasmava. No dia em que Benedito Valadares
foi lançar a pedra fundamental no campus da Universidade de Minas Gerais, eu fui lá com o
meu grupo [comunistas] para apedrejar (...). Dei de ler literatura e poesia moderna. Um dia me
encontrei gostando muito de Carlos Drummond, até da pedrada, creio que nasci naquele dia
como intelectual” (1997: 79-82).
25 A qual “tentei reescrever, quarenta anos depois, com o meu O processo civilizatório” (1997:
80).
26
“Os comunistas é que me fizeram sentir responsável pelo destino humano (...). Foram
também eles, apesar de todo o dogmatismo stalinista que imperava então, que atiçaram meu
fervor utópico” (2022: 53).
27 Sem incorrer neste clichê, Ribeiro, em seu relato do processo histórico brasileiro, acentua o
papel de Minas Gerais na formação nacional: o impacto da mineração do século XVIII
“foi muito maior. O Rio de Janeiro nasce e cresce como o porto das minas. O Rio
Grande do Sul e até a Argentina, provedores de mulas, se atam a Minas, bem como o
patronato e boa parte da escravaria do Nordeste. Tudo isso fez de Minas o nó que atou
o Brasil e fez dele uma coisa só” (1995: 153).
Entretanto, ao fazer o elogio de Ouro Preto – “a mais alta expressão da civilização brasileira –
transcreverá (no núcleo da sua obra magna, “O povo brasileiro”) três páginas de “meu romance
da mineiridade: Migo”. Esta longuíssima autocitação se desfecha com as seguintes palavras:
“Minas, árvore alta. Minas de sangue, de lágrima, de cólera. Minas, mãe dos homens.
Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da
semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular” (1995:
156). ...
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025