Darcy Ribeiro: o fazimento do Brasil.  
Prof. Armando de Melo Lisboa  
(UFSC)  
“A Amazônia é o maior desafio que o Brasil já enfrentou” (1995: 335).  
“Olhe Darcy, você é um príncipe da observação. Tem uma capacidade enorme de observação,  
tanto que eu uso muito os mitos e as coisas que você colhe.  
E por isso eu acho bobagem você fazer teoria” (Lévi-Strauss).  
“Fazimento”, em Darcy Ribeiro, ressoa “fazer com sentimento”, no melhor estilo de Guimarães  
Rosa e Gilberto Freyre. Traduzindo a ideia de um processo vital contínuo, caloroso e barroco,  
diferenciado do acabado “gótico altivo de frias gentes nórdicas”1, tão caro a Darcy, ela guiará  
suas respostas às indagações centrais de seu trabalho: Por que o Brasil ainda não deu certo?  
O que somos entre outros povos?  
Como veremos, estas questões o impulsionam a inserir o Brasil dentro da América Latina e  
esta no processo civilizatório fruto da expansão europeia. Nosso resgate de sua interpretação  
do Brasil, foco do presente seminário2, buscará descortinar a atualidade e a vitalidade de sua  
obra, destacando apenas os aspectos com força para inseminar os caminhos atuais e futuros  
deste país.  
E buscaremos isto ao longo dos quatro momentos deste breve ensaio, que inicia com uma  
rápida reconstituição da sua rica e múltipla vida. Na sequência, apresentaremos uma síntese  
da sua visão sobre a formação do Brasil; um panorama da sua teoria civilizatória e o que ela  
ilumina aos brasileiros; e, por fim, a utopia estética que advoga para nossos povos.  
1. Prelúdio: fazimento de Darcy, inconfidente redivivo.  
“Não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política  
e faço ciência movido por razões éticas e por um profundo patriotismo.  
Não procure, aqui, análises isentas” (1995: 17).  
“Eu sou atípico. O PC não me quis porque me achava um militante muito agitado, e a FEB não  
me aceitou porque os médicos achavam que eu era muito raquítico para ser sargento. Eu me  
entendi com o marechal Rondon e passei dez anos com os índios. Dali fui ser ministro da  
Educação, criei a Universidade de Brasília, fui chefe da Casa Civil do Jango, tentei fazer a  
reforma de base e caí no exílio. E foi no exílio que escrevi uma larga obra. Nunca gostei de ser  
político. No fundo, acho que sou político por razões éticas. Um poeta inglês pode ser só poeta.  
Mas num país com o intestino à mostra, como o Brasil, o intelectual tem a obrigação de tomar  
posição” (Zarvos, 2008: 191).  
Carlos Lessa, ao iniciar o documentário “Sonho intenso”, cujo protagonista é o processo de  
industrialização brasileiro, pergunta: “O que é o Brasil, o que é ser brasileiro?” Diante desta  
indagação estruturante do longo documentário, o próprio Lessa de imediato responde citando  
Di Cavalcanti, Portinari, Tarsila, Macunaíma, o “gênio de Aleijadinho” e o barroco mineiro –  
“vitalidades de uma nova civilização que está nascendo no Brasil” – e, de forma incomum no  
âmbito dos economistas, conclui:  
1 1995: 69.  
2 “Intérpretes do Brasil”, organizado no âmbito do Dpto. de Economia e Relações Internacionais  
da UFSC.  
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“pego a cultura para dizer que a economia sozinha não leva pra lugar nenhum” !  
Ora, nossa época é marcada pela convergência sem precedentes entre ecologia e cultura.  
Adentramos no ANTROPOCENO, era na qual a humanidade se tornou um agente geológico do  
planeta. Tendo o tempo antropológico alcançado o tempo geológico, os clássicos dualismos  
ontológicos que singularizam o Ocidente (natureza e sociedade; ciências naturais e humanas)  
tornam-se obsoletos, impondo-se responder: como nós, humanos, nos encaixamos na teia da  
vida?  
Antecipando-se profeticamente à “grande transição do século XXI”3 pautada pelo “novo regime  
climático”4, Darcy Ribeiro vislumbrou que os “povos novos, em fazimento”, como o brasileiro e  
outros latino-americanos, estão a “reinventar o humano”, a construir “uma nova civilização,  
mestiça e tropical, (...) melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa ...”5.  
Como é sabido, a visão do Brasil, como “novo mundo nos trópicos” não é uma tese darcireana,  
pois, além de defendida por contemporâneos de DR6, tinha brotado anteriormente em Oswald  
de Andrade e a corrente antropofágica, bem como sido esculpida por Gilberto Freyre.  
“Nascemos sob o signo da utopia”, não cansava de repetir Darcy. Inspirado nos primeiros  
relatos sobre a “visão do paraíso”7, Morus cunha a própria palavra “utopia” e redige seu mais  
que célebre ensaio. O impacto cosmológico do “Novo Mundo” foi tal que Montaigne,  
Shakespeare, o iluminismo europeu, e a própria Revolução Francesa, são devedores em muito  
da crítica indígena à civilização ocidental8.  
Todavia, é apenas recentemente, após Lovelock (hipótese Gaia), que os ocidentais  
“descobrem” que “a Terra se comove”9, trazendo um deslocamento de placas tectônicas não  
menos poderoso que o vivido pela geração de Galileu (“a Terra se move”). Esta profunda  
revolução no zeitgeist se consolida com a simultânea revolução tecnológica e produtiva  
centrada no valor e na regeneração da natureza (green deal), a qual imensas oportunidades  
econômicas traz para o Brasil. Reconfigurada como “centro do mundo” no novo regime  
climático, a Amazônia, pela primeira vez, faz valer a amplitude de seu peso e dimensões  
amazônicas. Darcy nos apresenta a carta de entrada do Brasil na nova dinâmica geopolítica  
global.  
Após diplomar-se na Escola Livre de Sociologia e Política (ELESP) e no auge de sua  
juventude, Ribeiro viveu uma imersão de uma década com indígenas no Brasil Central, o que  
dotou-lhe duma compreensão paradigmática crítica ao “progresso” e à “recolonização  
industrial” que brilhará até o final de sua fecunda trajetória. Mais que um compromisso político,  
DR teve com os povos ancestrais um compromisso vital. Confessando que a “vivência íntima  
com a floresta me inspirou”, compreendeu desde cedo que “a mata é uma entidade viva”,  
lição aprendida com os Kaapor10:  
“A Amazônia é o maior ser vivente que jamais se viu. Uma enormidade de massa viva,  
nascendo e morrendo continuamente, nutrindo-se de ares, águas e terra. Mas,  
sobretudo, de si mesma, numa autofagia em que se desfaz e refaz, enquanto se  
multiplica e diversifica em miríades de vegetais e animais”11.  
3 Abranches (2017).  
4 Latour (2020; 2020a).  
5 1995: 447; 449.  
6
Bautista Vital: “civilização solidária dos trópicos” (1987); Richard Morse: “O espelho de  
Próspero” (1988); P. Clastres: “A sociedade contra o Estado” (1974).  
7 Remeto, obviamente, à Sérgio Buarque de Holanda.  
8 Cf. Oswald de Andrade, Afonso Arinos; Graeber e Wengrow, entre tantos.  
9 Em verdade, a percepção de sermos parte de um todo maior e vivo possui, mesmo no âmbito  
ocidental moderno, uma longa genealogia, na qual Alexander von Humbolt (1769-1859) se  
destaca. A primorosa biografia dele feita por Andrea Wulf perfaz um preciso panorama da  
formação do zeitgeist ecológico hodierno.  
10 2022: 250; 98.  
11 2015: 125.  
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Diferentemente dos seus companheiros da esquerda brasileira, Darcy não viu maravilhas no  
“milagre econômico do Regime Militar (vide “Sonho intenso”). Ao contrário, “os efeitos dessa  
política foram, por um lado, o crescimento exponencial de cidades (...) e o desencadeamento  
da violência urbana. Por outro, o desmatamento mais antiecológico da Amazônia e a violência  
rural que explodiu”12.  
Em Cuba, em 1989, declarou:  
"mais industrialização como a paulista, mais exploração de minérios como Carajás,  
mais destruição da Amazônia, não melhoram em nada as condições de vida do povo e  
só consolidariam nosso papel de proletariado externo das potências cêntricas”13.  
Sabedor que “a população mestiça neobrasileira da Amazônia herdou boa parte da sabedoria  
adaptativa” dos indígenas, propôs –  
“em lugar da ilusão de que acumulando fábricas estrangeiras e grandes empresas  
agrárias de exportação acabaríamos reproduzindo a Revolução Industrial [com o]  
desenvolvimento pela industrialização substitutiva”14  
a criação de comunidades que, organizadas em cooperativas e assentadas em “tabas de  
caboclos”, manejassem a psicultura e bosques frutíferos da região. Ao final de sua vida DR, de  
forma entusiasta, defenderá que este “Projeto Caboclo15 é o maior sonho de sua vida e “o  
projeto mais importante que já surgiu no Brasil”16.  
Não é pouco, considerando que Ribeiro concebeu e dirigiu a UnB (primeiro Reitor); concebeu e  
construiu o Sambódromo17; o Museu do índio18; o primeiro programa de PG em antropologia  
brasileiro; o Parque do Xingu; o Memorial da América Latina; os CIEPS; a LDB, a UENF, hoje  
denominada Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro...  
“Educador apaixonado pelo ensino público básico, e também criador e reformador de  
universidades. Ensaísta crítico e romancista, etnólogo de campo, além de ex-revolucionário ...  
12 2022: 106.  
13 2022: 279.  
14 2022: 99; 250.  
15  
Na trilha desta inspiração darciana, surgiu, finalmente, o "Laboratório Criativo da Amazônia  
para Cupuaçu e Cacau". Fazendo parte do visionário "Amazônia 4.0", programa que aprimora a  
bioeconomia florestal junto às comunidades amazônicas, este Laboratório quer potencializar  
alternativas econômicas junto às comunidades indígenas e ribeirinhas. Uma ampla reportagem  
sobre o mesmo foi feita pelo JN (edição de 29/10/2021). Além dela, indico também as seguintes  
matérias:  
16  
2022: 327. A “incorporação do campesinato ao sistema econômico e político brasileiro pela  
reforma agrária (...) é o caminho brasileiro da revolução social” (1997: 292). “Chico Mendes e  
seus companheiros foram os únicos que apontaram concretamente para como fazer a  
Amazônia habitável e rendosa” (1995: 336).  
17  
“Sambódromo não existe. O que existe é um Escolódromo, que empresta sua sede às  
escolas de samba na semana do carnaval. Este milagre foi possível porque Oscar meteu  
duzentas salas de aula debaixo das arquibancadas” (1997: 474). “Oscar” é Oscar Niemeyer  
(1907-2012).  
18  
Organizado para quebrar os estereótipos dos índios como brutais e inculturados, foi  
“saudado internacionalmente como o primeiro museu voltado, especificamente, contra o  
preconceito” (1997: 196). Liderado por DR, o Museu do Índio acolheu a primeira pós-graduação  
em antropologia no Brasil.  
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Tantas peles encarnei na vida ...”19. Assim o ex-ministro da Educação e da Casa Civil (gov.  
João Goulart)20, ex-vice-governador (de Brizola) e senador do RJ, assessor e amigo de  
Salvador Allende (para quem escrevia discursos presidenciais)21 e membro da ABL resume sua  
fabulosa vida.  
Darcy não é produto feliz do acaso. Fez parte da “geração mineira de 1945”, com Paulo  
Mendes Campos (1922-91), Fernando Sabino (1923-2004), Otto Lara Resende (1922-92),  
Murilo Rubião (1916-91), Helio Pelegrino (1924-88), Francisco Iglésias (1923-99), Autran  
Dourado (1926-2012), Celso Brant (1920-2004), “todos revolucionários à sua maneira,  
sobretudo através da literatura”22. Esta geração, por sua vez, é fruto da “geração modernistas  
de Minas Gerais” de 1920/30: Carlos Drummond de Andrade (1902-87), Gustavo Capanema  
(1900-85); Juscelino Kubitschek (1902-76)23; Afonso Arinos de Melo Franco (1905-90),  
Guimarães Rosa (1908-67).  
Nascido em Montes Claros em 1922, “capital” do Norte de Minas, deslocou-se aos 17 anos  
para estudar Medicina em Belo Horizonte24 (cursará até o 4 ano), engajando-se então na  
militância do Partido Comunista Brasileiro (ocasião em que devora “A origem da família, da  
propriedade privada e do Estado”25, de F. Engels)26. DR é fruto da qualidade do ecossistema  
cultural da elite intelectual mineira, mas dista do estereótipo da mineirice27: a incontida paixão,  
irreverência e um “linguajar nada parcimonioso” marcam toda sua dionisíaca trajetória, a ponto  
19 2022: 347.  
20  
Sua atuação no governo Goulart, em conjunto com Celso Furtado, foi caraterizada como  
“reformismo-desenvolvimentista” por Carlos Guilherme Motta (1986: 29.  
21  
Em 1971 Darcy vai para o Chile, a convite de Salvador Allende. No onze de setembro de  
1973 ele se encontrava morando no Peru, para onde tinha ido havia poucos meses. O general  
Velasco Alvarado, então Presidente do Peru, convidou Darcy para colaborar com seu governo  
“nacionalista-modernizador”.  
22 Schwartzman, 2021: 73.  
23  
É pelas mãos de Juscelino que DR será alçado para o cenário nacional, incumbido de  
conceber uma universidade na nova capital, Brasília.  
24 “Três anos de Belo Horizonte me haviam transfigurado. (...) Nestes anos, JK, prefeito de BH,  
edificava o conjunto da Pampulha. O que ele fazia era tão novo, diferente e espantoso que  
assustava os mineiros e por isso mesmo me entusiasmava. No dia em que Benedito Valadares  
foi lançar a pedra fundamental no campus da Universidade de Minas Gerais, eu fui lá com o  
meu grupo [comunistas] para apedrejar (...). Dei de ler literatura e poesia moderna. Um dia me  
encontrei gostando muito de Carlos Drummond, até da pedrada, creio que nasci naquele dia  
como intelectual” (1997: 79-82).  
25 A qual “tentei reescrever, quarenta anos depois, com o meu O processo civilizatório” (1997:  
80).  
26  
“Os comunistas é que me fizeram sentir responsável pelo destino humano (...). Foram  
também eles, apesar de todo o dogmatismo stalinista que imperava então, que atiçaram meu  
fervor utópico” (2022: 53).  
27 Sem incorrer neste clichê, Ribeiro, em seu relato do processo histórico brasileiro, acentua o  
papel de Minas Gerais na formação nacional: o impacto da mineração do século XVIII  
“foi muito maior. O Rio de Janeiro nasce e cresce como o porto das minas. O Rio  
Grande do Sul e até a Argentina, provedores de mulas, se atam a Minas, bem como o  
patronato e boa parte da escravaria do Nordeste. Tudo isso fez de Minas o nó que atou  
o Brasil e fez dele uma coisa só” (1995: 153).  
Entretanto, ao fazer o elogio de Ouro Preto – “a mais alta expressão da civilização brasileira –  
transcreverá (no núcleo da sua obra magna, “O povo brasileiro”) três páginas de “meu romance  
da mineiridade: Migo”. Esta longuíssima autocitação se desfecha com as seguintes palavras:  
“Minas, árvore alta. Minas de sangue, de lágrima, de cólera. Minas, mãe dos homens.  
Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da  
semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular” (1995:  
156). ...  
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de uma das suas “biógrafas” o caracterizar como “indisciplinado”28. Mais que “indisciplinado,  
era “ilimitado”, dirá outro “biógrafo”29.  
Uma segunda pele agregou com a forte ligação com a cidade de São Paulo, onde adentrou na  
ELESP, fez o Bacharelado em Sociologia e o mestrado, completado em 1947. Darcy relata,  
nas suas memórias, como o doutrinarismo do PC lhe impediu de conversar com Mário de  
Andrade, mas lhe propiciou a “agradável experiência” da campanha eleitoral que elegeu Caio  
Prado Jr. deputado.  
Concluído o mestrado, levou uma carta do prof. Baldus ao marechal Rondon (1865-1958),  
recomendando-lhe para o cargo de etnólogo no Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Foi o  
primeiro etnólogo contratado do SPI, onde trabalhou de 1947 a 1956. Deste primeiro encontro  
com Rondon, DR registrou: “fiquei galvanizado instantaneamente pela bela figura índia de  
Rondon, pela dignidade de sua fisionomia, pela energia de seu olhar, pela naturalidade de seu  
mando”30. Rondon – “o principal dos humanistas brasileiros”31 morrerá segurando as mãos de  
Darcy32. Sua amizade com Rondon, herói inconteste das Forças Armadas, lhe dará algumas  
regalias nos seis meses em que esteve preso num quartel da Marinha após o AI 5 em 1968.  
Aqueles dez anos vividos praticamente imersos com diversos grupos indígenas marcaram  
definitivamente sua trajetória posterior, registra Bonfil Batalla33. Em uma das raras interrupções  
desta longa convivência com os povos originais, convenceu Getúlio Vargas, em 1952, a criar o  
Parque do Xingu, o primeiro e o único do gênero no Brasil, cujo projeto de “caráter multicultural  
ambicioso para os padrões de qualquer época”34 concebeu em conjunto com os irmãos Villas  
Boas.  
Na recapitulação de sua vida, em “Confissões” (1997), Ribeiro, ao falar da “fascinação” desta  
longa convivência com os índios, revela que lhe “encantava” nos mesmos “sua dignidade,  
inalcançável para nós, de gente que não passou pelo mó da estratificação social”35. Diante da  
“ausência de mandonismo”36, da “generosidade”, da sua “espontânea e tranquila alegria”, da  
“limpeza e seu gosto de se embelezarem”, Darcy confessa que “até hoje me pergunto o como e  
o porquê dos seus modos tão extraordinários de serem tal qual são”37. Bonfil Batalla lembra  
que para Darcy  
“O índio não é um objeto de estudo. Desde o início de sua atividade profissional, Darcy  
se compromete sempre vitalmente com o destino desses povos ante a ameaça  
eminente que representa o avanço das frentes de expansão da sociedade brasileira.”38  
Se Rondon, “meu santo-herói”, foi um dos dois alter egos que Darcy dizia ter, o outro foi Anísio  
Teixeira (1900-71)39, “meu santo-sábio”, com quem vai trabalhar após sair do SPI em 195640.  
28 Bomeny, 2001: 38.  
29 Reis, 2017: 325.  
30 1997: 149.  
31 1995: 147.  
32  
Além do enterro de Rondon (1958), Ribeiro também proferirá antológicos discursos nos  
funerais de Di Cavalcanti (1976) e Glauber Rocha (1981).  
33 Bonfil Batalla, 1979: 238.  
34 Esta observação devo a João Francisco Lisboa.  
35 1997: 158.  
36  
“Lá ninguém manda jamais em ninguém. No máximo, um cabeça-de-família, exercendo  
discreta liderança, sugere que talvez seja bom fazer, agora, tal ou qual coisa. Alguém pode até  
querer mandar, mas nunca será obedecido. Rirão dele. (...) apesar de toda essa convivência  
intensíssima, não há lugar ali para nenhum conflito. Nunca vi dois índios brigando a sopapos,  
nem nunca vi um marido batendo em mulher, nem mesmo pais castigando filhos. Aliás, o  
respeito pela criança é um dos traços mais simpáticos da indianidade” (2022: 72; 85).  
37 2022: 72.  
38 Bonfil Batalla, 1979: 238.  
39 Este realce é muito significativo porque Rondon e Anísio não eram de esquerda, muito pelo  
contrário.  
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Suas causas “foram ambas causas minhas: a proteção aos índios e a educação do povo”41.  
Revela que “fui para a educação pelas mãos de Anísio”42, e que também de Anísio “fiz meu o  
seu lema: não tenho compromisso com minhas ideias, busco a verdade”43, dele encarnando  
ainda a concepção das escolas de tempo integral.  
Leonel Brizola (1922-2004) completa o tripé do fazimento de Darcy44. Nele encontrou “o  
patrono de sua utopia escolanovista”, fazendo-o “o maior educador do país”45. A fidelidade à  
causa educacional e a Brizola (ambos fundarão o PDT) amalgamam-se, constituindo parte do  
núcleo definidor desta guerreira figura. Completam este núcleo, além do “profundo vínculo  
humano com os índios do Brasil”, conforme visto acima, a lealdade aos “padrões de trabalho  
científico”46.  
Em verdade, Darcy, com seu estilo apaixonado, insubmisso e iracundo, destoa do insípido  
modelinho weberiano convencional que separa os mundos da ciência e da política, os do saber  
e os da arte, e este “descarrilhamento” ele deve muito a Gilberto Freyre (1900-87). Em ambos  
a rígida dicotomia entre cabeça e coração é ultrapassada. DR louvou a combinação gilbertiana  
de “estudo científico com criação literária”, realçando que o “extraordinário fato de atender a  
dois amores” o fez “mais inteligente”. Em Casa-grande & senzala “são incontáveis as vezes em  
que o antropólogo se deixa engabelar pelo novelista”, desvenda Darcy em épico e amplo  
“prólogo” 47 a CG&S – “a obra mais importante da cultura brasileira”48.  
“Dos cientistas modernos do Brasil só Gilberto Freyre de fato me empolgou”, expressou  
Darcy49. Tremendamente influenciado por Freyre especialmente pelo método da empathic  
ability dele também demarcará grandes diferenças, como veremos, as quais vão muito além  
das clivagens onde Gilberto enfatiza o “negro” e Ribeiro o “índio” como elemento dominante e  
demiúrgico na edificação da matriz brasileira; onde o sábio de Apipucos privilegia a força da  
casa-grande, enaltecendo-a, em detrimento da senzala; e o inconfidente denuncia a violência  
40  
Assim Darcy expressou sua admiração por alguns amigos já falecidos: “Convivi com alguns  
homens admiráveis que já se foram. Entre eles meu herói Rondon; meu estadista, Salvador  
Allende; meu santo, frei Mateus Rocha; meu sábio, Hermes Lima; meu gênio, Glauber Rocha;  
meu filósofo da educação, Anísio Teixeira” (apud Gomes, 2010: 122). Em outra ocasião,  
afirmou que Josué de Castro (1908-73) foi “o intelectual mais brilhante que conheci” (1997:  
122).  
41 1997: 223.  
42 2022: 217.  
43  
1990: 15. “Eu, que vivia cheio de verdades, custei a compreender a atitude dele, quando  
reiterava que não tinha compromisso com suas ideias. Custei a compreender que a única  
forma de se ter um compromisso com a busca da verdade é não estar junto a verdade alguma”  
(Zarvos, 2007: 94).  
44 A força do vínculo com Brizola decorre de que nele DR reencontra o “getulismo” que moldou  
sua identidade pública. Em suas “memórias”, DR registra a “mudança ideológica radical” que o  
suicídio de Vargas teve sobre ele: compreendi a  
“besteira que fazia com minha postura de comunista utópico, à base de um falso  
marxismo. (...) Compreendi que me cabia tentar fazer o máximo possível, aqui e agora,  
para enfrentar os problemas do povo e do país. Isso é o que estava fazendo Getúlio e  
não o Parido Comunista. Desde então afastei-me dos comunistas e acerquei-me dos  
trabalhistas” (1997: 276).  
45  
“O Brizola fez de mim o maior educador brasileiro, no sentido que fiz 507 CIEPs, fiz uma  
universidade, a Norte Fluminense, e preparamos 24.000 professores” (Bomeny, 2001: 49).  
46 1986: 3.  
47 Publicada na tradução espanhola da Biblioteca Ayacucho, Caracas, em 1977. Não por acaso,  
naqueles dias Darcy iniciará sua “carreira literária”, onde nos brindará com quatro célebres  
romances.  
Fernando Henrique Cardoso, em sua apresentação a CGS, faz menção a este “prólogo” de  
Darcy, e registra, comparando Darcy com Gilberto: “Darcy Ribeiro, outro renascentista caboclo,  
desrespeitador de regras, abusado mesmo e com laivos de gênio” (2013: 79).  
48 1979: 69; 64.  
49 2022: 55.  
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da mesma, acusa a elite brasileira pelos nossos fracassos, incorporando a luta dos desíndios,  
desafricanos e deseuropeus por sua humanitude.  
No momento, cabe ainda realçar que Darcy elucida com precisão o indecifrável autor-esfinge  
que é Gilberto, tão impreciso e tão genial, tão conservador e tão revolucionário:  
“GF viveu sempre o drama, a comédia – a novela de ser dois: o pernambucano e o  
inglês. (...) Nesta capacidade mimética de ser muitos, permanecendo ele, é que se  
assenta o segredo que lhe permitiu escrever ‘Casa-grande & senzala’. Através de suas  
centenas de páginas, Gilberto é sucessivamente senhorial, branco, cristão, adulto,  
maduro, sem deixar de ser o oposto em outros contextos, ao se vestir e sentir escravo,  
herege, índio, menino, mulher, efeminado”50.  
2. Brasil-nação: formação e futuro.  
“Andei pela terra, conheço o mundo, vi com meus olhos que não há província mais bonita que  
o Brasil. Conheço bem o povo brasileiro, até como antropólogo posso dizer a vocês que não só  
a terra é boa como o povo é ótimo. O ruim aqui são os ricos. Os bonitos, os educados. Sinto na  
ponta dos dedos, se estico as mãos, que em tempos previsíveis e breves se pode criar aqui um  
país próspero e solidário. Temos todas as possibilidades de fazer com que o Brasil dê certo. A  
condição é proibir o passado de se imprimir no futuro. É interromper a dominação hegemônica  
e pervertida de nossa classe dominante infecunda. Inumeráveis são os exemplos de que ela e  
seus tecnocratas só planejam contra o povo. Aí está este horror que é o Projeto Carajás.  
Metem lá todo o dinheiro do Brasil, para produzir o minério que os estrangeiros querem  
consumir. Vão produzir no Brasil um buraco maior que o maior buraco do mundo que é o de  
ltabira, em Minas Gerais deixando os brasileiros tão pobres como os mineiros” (2015: 245).  
“Nenhum povo vive e se transforma sem uma teoria de si mesmo” (Reis, 2017: 329).  
Darcy nos revela os tantos Brasis e, contudo, apenas um, uma só etnia nacional, um povo-  
nação, singularizado de povos limítrofes pela língua comum e por tradições compartilhadas.  
Esta nação unificada51 é um “feito extraordinário” se comparado com ao esfacelamento da  
América hispânica onde “em cada porto se inventa uma nação”52. Este feito, entretanto, não é  
mérito exclusivo das velhas classes dirigentes, como é comum atribuir, nem decorre  
principalmente delas.  
“Sua unidade fundamental [das diferentes regiões] decorre de serem todas elas  
produto do mesmo processo civilizatório que as atingiu quase ao mesmo tempo; de  
terem se formado pela multiplicação de uma mesma protocélula étnica”53.  
Os primeiros núcleos luso-tupi foram enriquecidos com os “contingentes africanos, já  
totalmente desafricanizados pela mó acumulativa da escravidão”. Assim, brasilíndios e afro-  
brasileiros plasmaram, já nas primeiras décadas, através do processo de transfiguração étnica  
de suas matrizes, a protocélula cultural original, a qual “operou como o denominador comum  
dos futuros brasileiros de todas as regiões”54.  
Este processo de gestação étnica pelo qual chegamos a ser o que somos, brasileiros, foi um  
resultado improvável e surpreendente, uma espécie de subproduto indefinido  
50 1979: 73, 66.  
51  
“Esta unidade nacional não deve cegar-nos, entretanto, para disparidades, contradições e  
antagonismos que subsistem debaixo dela” (1995: 22).  
52 1995, 157; 22.  
53 1995: 254.  
54 1995: 128.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
“e indesejado do empreendimento colonial que só pretendia ser uma feitoria. A  
empresa Brasil se destinava era a prover o açúcar de adoçar boca de europeu, o ouro  
de enricá-los. (...) Éramos, ainda somos, um proletariado externo aqui posto para servir  
ao mercado mundial”55 (grifo nosso).  
Plasmados pelo cruzamento de índias com europeus, estes  
“rebentos não se identificavam com a gente materna, escravizada e subjugada, e sim  
com a paterna, dominadora. Entretanto, estes rebentos mestiços não eram  
reconhecidos pela gente paterna como iguais e só superaram sua marginalidade  
quando se afirmaram como distintos de ambas as matrizes, cristalizando um ethos  
nacional próprio, o brasileiro.”56  
O mesmo ocorre com os advindos do tráfico negreiro. A etnia brasileira surge, assim, de duas  
ninguendades: a destribalização dos indígenas e a desafricanização dos negros. Nascemos  
da ninguendade, condição daqueles que, postos entre mundos conflitantes, vivem “o drama de  
ser dois, que é o de ser ninguém”.  
Tornados ninguém pela violência do europeu, indígenas e africanos transfiguram-se, dando  
gênese a um povo novo: os brasileiros. Este caldeamento ocorrido nos trópicos conformou-se  
sob a regência lusa, “matriz cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se  
realizariam plenamente”57.  
Alçados pelas novas técnicas da navegação oceânica e das armas de fogo, os portugueses (e  
seus vizinhos ibéricos) “ganharam uma energia expansiva inexplicável”58 que, subjugando  
populações infinitamente maiores, lhes permitiu edificar a primeira civilização mundial. Ainda  
que lusitanizadas pela língua portuguesa e por serem constituídas como proletariado externo  
de um implante ultramarino da expansão europeia, estas massas morenas de mulatos e  
caboclos não perfazem uma Lusitânia de ultramar, mas um outro povo nos trópicos, o Brasil-  
nação.  
Todavia, Darcy muito insistiu que a transfiguração geradora da macroetnia brasileira é fruto “de  
um processo muito mais amplo: o da expansão da Europa Ocidental”59:  
“apesar de tudo, somos uma província da civilização ocidental. Uma nova Roma, uma  
matriz ativa da civilização neolatina. Melhor que as outras, porque lavada em sangue  
negro e sangue índio, cujo papel, doravante, menos que absorver europeidades, será  
ensinar o mundo a viver mais alegre e mais feliz”60.  
Se, em GF, é ao redor da Casa-Grande que se gesta nossa matriz histórico-cultural, em Darcy  
esta matriz é o processo de transfiguração étnica que alçou massas humanas despojadas de  
suas identidades na tarefa de fazer Brasil. É em redor da protocélula constituída por  
mamelucos e crioulos que advém a “nova etnicidade englobadora de todos eles”61.  
Para muitos “pensar o Brasil é pensar a formação do Estado nacional”. Para DR, o protagonista  
principal é o povo brasileiro, e não o Estado ou as velhas elites. Segue, portanto, a linhagem de  
Capistrano de Abreu: interpretar o Brasil do ponto de vista do povo “capado e recapado,  
sangrado e ressangrado” ao longo dos séculos.  
Na sua ótica, a identidade brasileira não é uma inventiva narrativa sobre as nossas raízes, nem  
decorre simplesmente de linguagens semióticas dos circuitos de comunicação, mas brota de  
forças sociais ativas ou latentes que, resistindo ao desprezo e aos violentos processos de  
55 “Indignação”. In: 2015: 217.  
56 1986: 412.  
57 1995: 223; 20.  
58 1995: 64.  
59 1986: 370.  
60 1995: 265.  
61 1995: 442.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
exploração e extermínio, bem como às duras condições bióticas, se expressam em inúmeros  
conflitos e rebeliões, as quais moldarão a percepção de nossa alteridade matricial:  
“Essa alternidade só se potencializou dinamicamente nas lutas seculares dos índios e  
negros contra a escravidão. Depois, somente nas raras instâncias em que o povo-  
massa de uma região se organiza na luta por um projeto próprio e alternativo de  
estruturação social, como ocorreu com os Cabanos62, em Canudos, no Contestado e  
entre os Mucker”63.  
Ou seja, indicando que não somos tão cordiais, pacíficos e democráticos como reza certa  
tradição, e mantendo imensa distância de uma elogiosa ótica senhorial, Darcy acentua a marca  
das “guerras do Brasil”64, os contínuos conflitos e revoltas que dilaceram nossa história, entre  
os quais Palmares (e os acima arrolados), que são extensamente analisados, além de  
presentes em toda sua obra:  
“O processo de formação do povo brasileiro, que se fez pelo entrechoque de seus  
contingentes índios, negros e brancos, foi, por conseguinte, altamente conflitivo. Pode-  
se afirmar que vivemos praticamente em estado de guerra latente, que, por vezes, e  
como frequência, se torna cruento, sangrento”65.  
Sua concepção etno-histórica da formação brasileira se distancia duma visão culturalista e  
reificadora das etnias, pois além daquela unidade étnica básica sofrer a ação das forças  
econômicas – “os brasileiros como um povo que não existe para si, mas para servir à  
prosperidade de minorias locais e longínquas”66 sobre ela também incidem vetores  
ecológicos (que “obrigaram a adaptações regionais”), e a força da imigração (europeus, árabes  
e japoneses ao aqui chegar já encontraram a protocélula nacional formada e “capaz de  
absorvê-los e abrasileirá-los”67).  
Portanto, Darcy se diferencia de Gilberto também por não assentar sua análise da nossa  
conformação nacional em Pernambuco, em partes do Nordeste ou em alguma outra região.  
Distingue, extensamente, as “múltiplas formas de participação no ser nacional”68, os diversos  
modos rústicos de ser dos brasileiros: caipiras do Sudeste e Centro, gaúchos das campanhas  
sulinas, caboclos da Amazônia, crioulos do litoral, e sertanejos do Nordeste, além de ítalo-  
teuto-nipo-brasileiros – “todos eles muito mais marcados pelo que têm de comum como  
brasileiros, do que pelas diferenças devidas a adaptações regionais”69.  
É “espantoso” que as ilhas-Brasil, tão iguais e tão diferentes, tenham se mantido aglutinadas  
numa só nação. O que integrava este arquipélago era o vigor e a flexibilidade da identidade  
étnica protobrasileira precocemente constituída, além ação aglutinadora da estrutura  
socioeconômica colonial de caráter mercantil (tornando todos um proletariado externo). Mais  
contemporaneamente, estas áreas culturais se aproximam ainda mais face ao “imperativo do  
processo geral de industrialização que a todos afeta e em virtude da ação uniformizadora dos  
sistemas de comunicação de massas”70.  
Darcy reconhece, portanto, o lado exitoso da modernização promovida pela industrialização  
substitutiva de importações concebida pela CEPAL71. Mas, também ressalvou que contivemos  
a capacidade transformativa da industrialização por tornar obsoleto o trabalho muscular como  
62 “A mais cruenta da história americana, custou mais de 100 mil vidas” (“A Amazônia e seus  
povos”, in: 2015: 129).  
63 1995: 25.  
64 “As guerras do Brasil” é um dos subtítulos de “O povo brasileiro” (p. 167).  
65 1995: 168.  
66 1986: 370.  
67 1995: 21.  
68 1996: 421.  
69 1995: 21.  
70 1995: 265.  
71 1995: 202.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
fonte energética, ela possui um “caráter libertário”. Entre nós, todavia, como a industrialização  
deu-se pela via reflexa da atualização histórica, ela  
“se converteu num mecanismo de recolonização, [transformando] a classe dominante  
nacional de uma representação colonial aqui sediada, numa classe dominante  
gerencial, cuja função agora é recolonizar o país, através das multinacionais”. 72  
Acentuou Darcy, ainda, que a concentração desta “industrialização recolonizadora” em São  
Paulo “fez deste estado um polo de colonização interna (...), implantando um colonialismo  
interno” que agrilhoou o desenvolvimento dos Brasis das outras regiões73.  
Os índios e nós.  
“O índio está condenado a ser índio porque não pode ser outra coisa. Ele só sabe viver  
segundo seus costumes. Esses costumes mudam lentamente. O que temos que fazer, não é  
transformar o índio num não índio, mas transformá-lo num índio melhor; mais armado de  
instrumentos, mais protegido contra as nossas enfermidades, com a garantia da terra em que  
vivem” (1978: 91).  
Advoga Darcy que o crescimento dos neobrasileiros “na forma de uma macroetnia” difere  
radicalmente das microetnias, cujo outrora aumento populacional conduzia à partição e  
advento de novas etnias que, “afastando-se uma das outras, iam se tornando reciprocamente  
mais diferenciadas e hostis”. Apesar da unidade linguística e cultural dos povos tribais, eles  
não configuravam uma macroetnia. A não ser em raras e “efêmeras confederações regionais  
que logo desapareceram”74, eles jamais se unificaram como uma “organização política que lhes  
permitisse atuar conjugadamente”75.  
Os estudos de Darcy demonstraram que a transfiguração dos povos indígenas originários  
difere profundamente da tese clássica, até então “reiterada por todos”, da aculturação  
progressiva que converteria as aldeias em vilas e cidades, selvagens em civilizados, índios em  
brasileiros76. Esta “historieta clássica (...) é absolutamente inautêntica”77. Ribeiro se insurge  
contra esta visão da assimilação decorrente do conceito de “aculturação” então preponderante  
nas análises etnológicas:  
“não houve assimilação das entidades étnicas, mas absorção de indivíduos  
desgarrados, ao passo que aquelas entidades étnicas desapareciam, ou se  
transfiguravam para sobreviver.”78  
Ribeiro destaca que a “integração” dos índios à sociedade nacional dá-se na condição de  
marginal da mesma, sem fusão na macroetnia brasileira, pois suas etnias se transformam pela  
transfiguração da condição de índios específicos à de “índios genéricos que quase nada  
conservam do patrimônio original”79, mas, mesmo “aculturados, permanecem sempre  
‘indígenas’ na qualidade de alternos dos ‘brasileiros’”. Proclama que  
“o índio é irredutível em sua identificação étnica, tal como ocorre com o cigano ou com  
o judeu” 80  
.
72 “Sobre o óbvio”. In: 1979: 18-19.  
73 1995: 250; 202; 260.  
74 A mais importante e conhecida delas é a Confederação dos Tamoios.  
75 1995: 122; 32-33.  
76 2022: 66.  
77  
“Não encontra nenhuma base nos fatos a ideia de que os índios, através de processos de  
aculturação, amadureçam para a civilização” (1995: 145).  
78 1986: 424.  
79 1986: 444.  
80 1995: 145.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
Reduzidos, pelo etnocídio, à proporção de um por 25 da população original, a partir deste  
mínimo este processo se reverteu e contemporaneamente voltou a crescer. Após séculos de  
extermínio, quando toda a antropologia brasileira e mundial não “esperava por essa mudança  
afortunada”, a grande novidade “é que vão sobreviver no futuro”.  
“A mudança de maior espanto ocorreu com os próprios índios, cuja atitude geral de  
submissão e humildade está dando lugar, muitas vezes, a uma postura orgulhosa e  
afirmativa”81.  
Como “povos decapitados”, até a pouco estes indigenatos careciam de “uma intelectualidade  
que os exprima”82. Hoje isto já mudou. O presente despontar é prenhe de magnitudes tais que  
Raoni, Mário Juruna, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Jaider Esbell, Joênia Wapichana, Sonia  
Guajajara e Daniel Munduruku, dentre outros, se tornaram “vetores de indigenização da política  
nacional, antes que de abrasileiramento dos índios”83. Hodiernamente, e no horizonte de futuro,  
o movimento indígena é um ator político cada vez mais relevante no cenário nacional.  
Ou seja, a perspectiva indígena recolocou o lugar dos outrora (e ainda) subalternizados,  
evidenciando o caráter colonialista dos paradigmas cristalizados, de cuja quebra e ruptura  
Darcy foi um dos pioneiros. Com ousadia, mas alavancado como herdeiro do humanista  
Rondon e em ampla vivência com os indígenas, DR destoou da antropologia indigenista, como  
veremos mais abaixo.  
A presente ascensão das macroetnias quéchuas, aymaras, maias e mapuches já tem gerado a  
reversão do modelo de Estado uninacional aqui imposto e o advento do Estado plurinacional  
em Bolívia e Equador, como Darcy chegou a antecipar. No caso destes grandes montantes  
demográficos, às vezes majoritários na população dos países em que se encontram, são  
processos com potenciais transfigurativos de reversão da secular opressão étnica e sua  
reconversão como povos emergentes84.  
Outra é a situação, diz Ribeiro, das microetnias no território brasileiro85. Aqui a sobrevivência e  
revigoramento das mesmas pode levar à mudança da concepção de Estado uninacional e ao  
reconhecimento do caráter multiétnico da sociedade. Mas, todavia, como “são tão poucos”86,  
elas não tem, avalia DR, potência para alterar o destino da macroetnia brasileira, “mas afeta a  
honra do Brasil”87:  
“Representando apenas um por mil da população brasileira, os índios são, hoje, quase  
inexpressivos no conjunto da nação e seus problemas são imponderáveis como  
problema nacional. Vale dizer, qualquer que seja seu destino, este não afetará a vida  
nacional; mas significa, também, que as terras que necessitam e a assistência de que  
carecem lhes podem ser concedidas sem grandes sacrifícios”.88  
81 1995: 144; 328-329; 331.  
82 “Os índios e nós”. In: 1979: 162.  
83 Castro, 2015:12.  
84  
“Eles vivem hoje o trânsito entre sua condição presente de Povos-Testemunho e sua  
condição futura de Povos-Emergentes.” (“Etnicidade, indigenato e campesinato”. In: 1979:  
188).  
85 2022: 77.  
86 “Os índios e nós”. In: 1979: 158.  
87 2015: 102.  
88 1986: 196.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
Nuestra América.  
“Olhando o mundo de hoje, pouca gente duvida que a China voltará a expressar, no ano 2000,  
a sua civilização milenar dentro da tecnologia mais avançada do mundo. A China era muito  
mais miserável do que nós. A China tem hoje 1 bilhão de habitantes, tem muito mais gente do  
que nós e, entretanto, foi possível, porque aí se abandonou aqueles projetos classistas  
estreitos e se reformulou um projeto nacional. Hoje em dia não entendemos a racionalidade  
dos chineses, não cabe na nossa racionalidade o que eles fazem. E nós no ano 2000, o que  
seremos? Seiscentos milhões de latino-americanos miseráveis, outra vez um povo de segunda  
classe, outra vez um povo neocolonizado?”  
(Depoimento gravado no México em 1978. In: 2022: 159).  
DR nunca dissocia a fortuna dos brasileiros do amanhã dos demais países latino-americanos.  
Sua ampla vivência em diversos países da AL o fez compreender que há uma unidade  
essencial do processo civilizatório brasileiro com o subcontinental. Sua resposta à indagação –  
“que somos nós entre os povos do mundo, os que não somos a Europa, o Ocidente ou a  
América original?”89 – reatualiza a perspectiva de Bolívar: “não somos europeus, não somos  
indígenas, somos uma espécie média entre os aborígenes e os espanhóis”.  
Até o final de sua vida Darcy compreendeu que o projeto de Bolívar unir-se numa grande  
nação, a pátria-grande deixando de ser povos para outros e assumir as rédeas da  
atualização histórica, ainda era o melhor para os países da América Latina. Com esta  
convicção, ao finalizar “O povo brasileiro”, exprime:  
“Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição  
comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal  
como ocorre na comunidade européia, a Nação Latino-Americana sonhada por  
Bolívar”90.  
89 2007: 76.  
90 1995: 448.  
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3. “Meta-antropologia”.  
“Já foi dito que a humanidade corre um tremendo risco porque de repente ela colocou todos os  
ovos no mesmo cesto. Antigamente não era assim. Se recuarmos 500 anos, temos 20 mil  
povos diferentes, falando línguas diferentes, cada um era uma alternativa humana. Se  
fracassassem 19 mil, ainda sobravam mil. Agora não, é tudo o mesmo tacho”  
(Zarvos, 2007: 143).  
Estudos civilizatórios, corpus literário.91  
“As forças homogeneizadoras não são nem fatais, nem tão drasticamente compulsórias  
como pareciam. Isso se faz visível quando atentamos para duas perspectivas que se  
abrem a nossa frente. Uma, macroscópica, desvendada pelos chineses; outra,  
microscópica, vivenciada pelo alçamento das minorias étnicas do mundo inteiro. (...)  
Creio que uma das descobertas importantes dos últimos anos neste campo é que a  
evolução humana não implica numa ocidentalização compulsória do homem, como se  
pensava. As bases materiais da civilização europeia com as máquinas a vapor e os  
motores são potencialidades humanas e não criaturas ocidentais ou cristãs como  
pareciam. Se não se desenvolvessem na Europa, surgiriam em outro contexto”  
(1979: 184).  
Ao final de sua vida, DR produz sua obra prima, apontada como a última (e o ápice92!) das  
grandes e clássicas interpretações do Brasil: “O povo brasileiro a formação e o sentido do  
Brasil” (1995). Como vimos, nela reluz um denso e eficaz esquema conceitual meta-  
antropológico: “transfiguração”, “protocélula cultural”, “revolução tecnológica”, “relações  
interétnicas”, “macroetnia nacional”, “microetnias”, “proletariado externo”, “modernização  
reflexa” ...  
Estas categorias foram cozinhadas num conjunto de livros que denominou “Estudos de  
Antropologia da Civilização”: “O processo civilizatório” (1968), “As Américas e a civilização”  
(1969), “Os brasileiros – teoria do Brasil” (1969), “Os índios e a civilização” (1970), “O Dilema  
da América Latina” (1971)93. “O povo brasileiro” (1995) completa – e coroa esta coletânea.  
O conjunto dos “Estudos” perfaz uma magistral contribuição cada vez mais ampla e  
universalmente reconhecida.94 Desde seus primeiros volumes, muito se saudou sua original  
perspectiva não ocidental/eurocêntrica, pioneira dos atuais estudos pós-coloniais.  
Nesses estudos, que ele também chamou de “antropologia dialética”, aqueles conceitos foram  
refinadamente forjados. Longe de querer ser exaustivo, pinçamos o conceito de etnia”, do qual  
derivam as noções de “minoria étnica”, “macroetnias”, “etnia hegemônica”, “populações muti-  
91  
Me restringirei à sua “obra acadêmica e ensaística”, deixando de examinar sua preciosa  
produção literária como romancista (“Maíra”, “O mulo”, “A utopia selvagem” e “Migo”), a qual,  
junto com a acadêmica, lhe alçou à Academia Brasileira de Letras.  
Todavia, Darcy dizia que a experiência da ficção, por romper com a camisa de força da  
objetividade científica, lhe permitia expressar o mundo indígena muito melhor que as centenas  
de páginas de seus trabalhos acadêmicos, “porque o verossímil é mais verdadeiro que a  
empiria científica” (2022: 340).  
92 Benjamin, 2022.  
93  
Algumas destas obras tem sido perfiladas no rol dos “clássicos do pensamento”, como é o  
caso de “Os índios e a civilização”, apresentado por João Pacheco de Oliveira no volume 2 da  
coletânea “Introdução ao Brasil. Um banquete no trópico” (organizada por Lourenço Dantas  
Mota).  
94 Em 1997 (p. 508) registrou que seus “estudos de antropologia da civilização, que formam um  
conjunto de mais de 2 mil páginas, têm hoje mais de noventa edições em seis línguas”.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
étnicas” e outras variações. Etnia será entendida por Darcy como uma “categoria relacional”  
entre agrupamentos humanos composta mais por “representações recíprocas e lealdades  
morais do que de especificidades culturais e raciais”95. Assim, privilegiando as expressões  
simbólicas advindas do contato entre grupos humanos, rompe DR com as análises que  
acentuam as particularidades de sangue e fenotípicas. A ideia de raça é, portanto, recusada96,  
no que seguia as lições de Manoel Bombim e Gilberto Freyre: eventuais comportamentos  
bizarros “não vinham da raça, mas da escravidão”97.  
Vale destacar ainda o conceito de “transfiguração étnica”, processo dentro do qual povos  
surgem, transformam-se e morrem. Esta categoria insere a formação e metamorfose das etnias  
dentro do amplo pano de fundo das “compulsões de natureza ecológica, biótica, tecnológico-  
cultural, socioeconômica e ideológica”98. Ela se revelou mais que fecunda, especialmente para  
explicar o fenômeno da sobrevivência dos indígenas brasileiros, o qual apenas se fará evidente  
a partir dos anos 1970, esclarece Mércio Gomes99.  
Iniciados no exílio, e buscando uma resposta ao “por que, mais uma vez, a classe dominante  
nos vencia”100, os “Estudos” buscaram compreender a formação do Brasil, ou melhor, do seu  
povo. Para tal, impõe-se discernir os elos que nos ligam ao resto do mundo, e pelos quais  
somos constituídos, uma vez que somos parte de um todo. E o quadro imediato de que somos  
parte é a América Latina, quadro continental que compartilhamos e no qual nosso destino  
comum se joga e decide.  
Como cada povo no esforço para se realizar trilha um caminho próprio e único, cabe definir e  
compreender nosso papel na América e no mundo, encontrar nossas próprias vias de  
realização de nossas potencialidades e destino101. O brasileiro, e o latino-americano, portanto,  
“não é explicável nem inteligível como mero europeu de ultramar”. Mas, insistia, faltava ao  
Brasil uma teoria geral, “uma teoria de nós mesmos (...) que não fosse uma mera reiteração  
das visões eurocêntricas” 102.  
“A necessidade de uma teoria do Brasil, que nos situasse na história humana, me levou  
à ousadia de propor toda uma teoria da história”103  
.
O que, todavia, era para ser uma “introdução” ao livro “Os brasileiros” acabou se desdobrando  
nos cinco volumes de “Antropologia da Civilização”. Somente um quarto de século após, e na  
iminência de morrer, já com o “vendaval do câncer” a lhe comer os pulmões, Darcy, num  
impulso final, foge do hospital para completar “a maior obsessão intelectual de minha vida”104.  
Nos entrega, finalmente, “O povo brasileiro”, obra que culmina e sintetiza sua longa e múltipla  
trajetória.  
95 1986: 446.  
96  
Arruti (1995).  
97 1993: 15.  
98  
1986: 441. Nesta obra, este conceito é definido como  
“o processo através do qual as populações tribais que se defrontam com sociedades  
nacionais preenchem os requisitos necessários à sua persistência como entidades  
étnicas, mediante sucessivas alterações em seu substrato biológico, em sua cultura e  
em suas formas de relação com a sociedade envolvente” (p. 13).  
99  
Num momento em que todos apenas tinham “uma visão pessimista sobre o destino dos  
índios, (...) inesperadamente surge o conceito de transfiguração étnica, pelo qual povos  
influenciados por culturas mais potentes podem se adaptar e se transmutar, sem perder suas  
identidades básicas. Assim, Darcy consegue ver a possibilidade de sobrevivência dos povos  
indígenas, um feito surpreendente” (Gomes, 2000: 72).  
100 1995: 13.  
101 2015: 241.  
102 2022: 120.  
103 1995: 13.  
104 1997: 538.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
Para explicar o Brasil, Ribeiro concebeu, assim, uma visão panorâmica e não eurocêntrica da  
história humana (cujo núcleo central agora apresentaremos uma síntese) sem se aprisionar  
nos esquemas evolucionistas lineares.  
“Ao contrário do que geralmente se imagina, as sociedades humanas não evoluem  
passo-a-passo, como se ascendessem por uma mesma escada progressiva. Em  
consequência, não há nações avançadas configurando o que seja o futuro das  
retrógradas. Nem nações atrasadas repetindo passos passados das adiantadas. Umas  
e outras formam configurações contemporâneas de povos interdependentes dentro da  
civilização a que pertencem”.105  
O conceito reitor que guia os processos civilizatórios é o de “revolução tecnológica”,  
prodigiosas transformações das forças humanas “sobre a natureza, ou de ação bélica” a qual  
desencadeia alterações nos modos como os grupos humanos proveem sua subsistência e  
organizam a vida social. Como as sociedades “não existem isoladamente, mas em permanente  
interação umas com as outras”, sua história é regida pelo “desenvolvimento acumulativo da  
tecnologia produtiva e militar”106, difundida seja por criatividade interna, seja por compulsão  
externa, transfigurando assim o curso evolutivo das mesmas.  
Postula Darcy que uma revolução tecnológica se propaga sobre contextos socioculturais  
distintos de dois modos, os quais definem as duas vias de inserção das sociedades ao curso  
da dinâmica civilizatória: o da “aceleração evolutiva” – pelo qual “os povos que vivem para si  
mesmos” dominam autonomamente a nova tecnologia, “renovam seu sistema produtivo e  
reformam suas instituições sociais”. A outra via é por “atualização ou incorporação  
histórica”, em que povos tecnologicamente inferiores são subjugados e engajados  
compulsoriamente como proletariado externo nos novos patamares produtivos, “com perda  
de sua autonomia ou mesmo com sua destruição como entidade étnica”107  
.
As formas como as sociedades adentram nas revoluções tecnológicas não estão pré-  
determinadas: cada povo a ela se integra conforme suas particularidades ecológicas, culturais  
e capacidades políticas, o que profere um “colorido”108 de resultantes históricas.  
Ainda que a base tecnológica imprima uma dinâmica universal comum, ela “não exclui a  
possibilidade de atuação de outras forças dinâmicas” dadas pelos sistemas sociais e  
ideológicos de cada sociedade, os quais agem como forças diversificadoras, condicionando o  
progresso tecnológico, “acelerando-o ou retardando-o”, fecundando-o ou limitando-o109. A  
depender destas capacidades, alguns povos serão o centro expansivo das novas forças  
produtivas e bélicas, outros serão por elas recolonizados.  
Conferindo inteligibilidade à história, e compatível com as contribuições arqueológicas de  
então, o marco conceitual darcyano incorpora, portanto, o ser humano como agente ordenador  
da evolução histórica, rompendo assim tanto com o evolucionismo clássico e etapista, quanto  
com o estruturalismo funcionalista dominantes – “duas estreitezas”.  
Por fim, ao se debruçar sobre como os povos americanos experenciaram o processo  
civilizatório, Darcy cunhou uma tipologia étnico-nacional de quatro configurações históricas  
com abrangência universal:  
Povos testemunho (os remanescentes modernos de antigas civilizações astecas,  
incas), que, por carregar “duas heranças culturais imiscíveis, (...) vivem o drama da  
ambiguidade de povos situados entre dois mundos culturais contrapostos, sem poder  
optar por nenhum deles”110  
;
105 2015: 55.  
106 1987: 34; 38-39.  
107 1987: 34; 55-56.  
108 1987: 36.  
109 1987: 39-40.  
110 2015: 112-114.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
povos novos (os plasmados pela fusão e deculturação de matrizes indígenas, negras  
e europeias);  
povos transplantados (resultantes da migração para o ultramar de grandes  
contingentes europeus, preservando o perfil étnico, língua e cultura originais)111;  
e povos emergentes (correspondem as novas nações que surgem na África e Ásia  
que, no curso da descolonização, ascendem de um nível tribal para o de sociedades  
nacionais. Esta categoria ainda “não surgiu na América”, mas é de supor que as  
populações indígenas remanescentes das altas civilizações americanas no “próximo  
milênio se ergam”112).  
O Brasil nos ciclos civilizatórios.  
“Somos e nos vemos como parte da civilização ocidental. Alternos das civilizações orientais  
como a indiana, a chinesa ou a japonesa. Mas bem sabemos que somos um subúrbio dela,  
mais distante e diferenciado dos seus orgulhosos núcleos cêntricos do que os soviéticos, além  
de imensamente menos importantes. Pouca ou nenhuma consciência temos, ainda, de que  
sobre nossos ombros recairá, em grande parte, a tarefa de criar uma nova ocidentalidade que  
seja, pela primeira vez, uma civilização humana respeitável” (Kozel; Silva: 2022: 235).  
“O reencontro da Antropologia com a História”113 em DR projeta-o para longe das posições  
essencialistas que proclamam haver traços definitivos no caráter do brasileiro. Do mesmo  
modo que anunciou Renan ser “a nação uma escolha diária”, entende Ribeiro que o fazimento  
do Brasil é permanente e contínuo, que nosso destino não é inelutável.  
Assim, com precisão Darcy mostrou o impacto sobre o nosso processo de transfiguração étnica  
das revoluções agrária e industrial, as quais experimentamos numa condição subalterna e  
colonial. Se a agrário-mercantil “promoveu uma extraordinária prosperidade”, a revolução  
industrial “inviabilizou a escravidão (...) e nos tornou muito mais eficazes, não para nós mas  
para o exercício de provedores no mercado mundial”. Nos três séculos em que transcorreram o  
primeiro passo, se “moeu e fundiu as matrizes originais indígena, negra e européia em uma  
entidade étnica nova”114  
.
No segundo passo, quando alcançados há dois séculos pela Revolução Industrial, fomos  
incapazes de nos “incorporar autonomamente a ela por um salto evolutivo”115. Nos deixamos  
avassalar através da via da industrialização substitutiva de importações, que nos tornou uma  
“versão neocolonial da civilização industrial”116. A adoção das tecnologias mecanizadas  
poupadoras de mão-de-obra fez-se descartando grandes parcelas do trabalhador brasileiro.  
Todavia, manteve e deu continuidade à nossa transfiguração étnica, integrando nosso povo-  
novo nos estilos de vida industriais.  
111  
Salienta a situação especial “da Argentina e do Uruguai que, tendo sido conformados como  
povos novos, que conquistaram seus territórios e os levaram até a independência, foram  
depois avassalados por imensa onda gringa que os transfigurou, fazendo-os mais parecidos  
com os povos transplantados que com sua matriz original de povos novos” (1997: 505).  
112  
2007: 87. Em “Etnicidade, indigenato e campesinato”, Darcy aponta que os povos  
testemunho ”prefiguram o que serão no futuro”. Seu destino é o de refazer-se a partir do que  
são, segundo seu próprio projeto de si mesmos, no curso das próximas décadas. Um dia, que  
não está longe, eles serão as formas alternativas da europeia, de realização das  
potencialidades da civilização futura! (1979: 188).  
113 Carvalho 1986: 176.  
114 1995: 260.  
115 2015: 22.  
116 1995: 260.  
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Neste curso, nosso processo de transfiguração agora se renova, envolvidos que somos pela  
nova revolução tecnológica, precocemente diagnosticada por DR na virada dos anos 1960/70  
como “termonuclear”117. A civilização emergente transfigurará todos os povos, pois tudo  
refazerá, convulsionando a vida e os valores em todo o mundo. Que Brasil resultará destas  
novas convulsões? Sobreviveremos como nação? As respostas dependem do nosso modo de  
ajustamento ao novo ciclo do processo civilizatório, se pela via da aceleração evolutiva ou pela  
atualização histórica, na qual, reflexamente modernizados, continuaremos a servir como  
proletariados externos. Neste caso,  
“Se, outra vez, nos limitarmos ao papel subalterno de meros consumidores de seus  
frutos, veremos repetir-se o desastre que foi nossa inserção na civilização industrial,  
que só nos permitiu um desempenho medíocre dentro do mundo moderno”.118  
As “forças transformadoras da nova civilização – mais poderosas que qualquer outra que a  
humanidade tenha experimentado não podem ser contidas e concatenadas pelos  
procedimentos tradicionais”. Somente desfrutarão plenamente das potencialidades das novas  
formas de fazer, associar, sentir, crer, pensar e criar da civilização emergente os povos que  
não “se agarrarem a passados obsoletos”119. Tampouco cabe abrir-se a elas “passivamente,  
porque assim colocaríamos em risco a própria soberania e a unidade nacional do povo  
brasileiro”.  
Diante delas, portanto, é preciso afirmar “o primado do nacional sobre o internacional, e do  
social sobre o individual”. Ou seja: é vital “definir nosso programa alternativo de  
desenvolvimento autônomo e autossustentável pela exploração exaustiva de nossas  
potencialidades120 (grifo nosso). Mas,  
“não se trata de criar aqui nenhuma economia autárquica, mesmo porque nascemos no  
mercado mundial e só nele sobreviveremos. Trata-se é de deixar de ser um reles  
proletariado externo para ser um povo que exista para si mesmo, ocupado  
primacialmente em promover sua própria felicidade”121  
.
O caminho que Darcy visualiza para cumprir este desiderato não é fácil nem largo. Se, por um  
lado, a integração no mercado “é imperativa, porque isolar-se dele importaria num retrocesso”,  
por outro não podemos “abdicar de nossa soberania” e a ele “nos submeter, submissos” 122. A  
possibilidade de um “salto evolutivo à condição de economia autônoma”, que não se modernize  
apenas reflexamente, passa por uma ampla coalizão internacional onde, associados “a outros  
povos explorados”123, se construa uma nova ordem econômica mundial.  
117 Na época o mundo eletrônico e computacional operava com transístores e válvulas ...  
118 2015: 27.  
119 2015: 27.  
120 2015: 28.  
121 2015: 218.  
122 “O Brasil em causa”. In: 2015: 57-58.  
123 “O Brasil como problema. In: 2015: 49.  
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A educação e universidade necessárias, e controversas (tribais)124  
.
“O grande feito que nós, brasileiros, podemos ostentar diante do mundo como único, é a  
façanha educacional da nossa classe dominante. Esta é realmente extraordinária! E por isso é  
que eu não concordo com aqueles que, olhando a educação, falam de fracasso brasileiro no  
esforço por universalizar o ensino. Eu acho que não houve fracasso algum nesta matéria,  
mesmo porque o principal requisito de sobrevivência e de hegemonia da classe dominante que  
temos era precisamente manter o povo chucro.”125  
“O livro é o tijolo com que se constrói o espírito” (2022: 312).  
Dentre aquelas potencialidades acima, Darcy realça nossa conhecida criatividade nas artes  
populares. Ora, “algumas das novas alterações transfigurativas servem de base a grandes  
esperanças”: como a base da mesma é a expansão da “civilização letrada” e “novos sistemas  
de intercomunicação cultural”, isto “significa que a criatividade popular não se fará  
exclusivamente no nível do futebol, da música e outros valores”126  
.
Para que este potencial criativo popular se exponencie com o advento da última revolução  
tecnológica, a educação é o caminho. O principal acelerador da história de um povo consiste  
em dominar o saber humano e colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional. Nesta tarefa  
de promover a aceleração evolutiva, dar “para todas as crianças a escola primária, universal e  
gratuita que o mundo criou” é uma das principais chaves. Esta visão o levou a implantar, talvez,  
“o maior projeto de escola pública do Brasil contemporâneo”, os Centros Integrados de  
Educação Pública CIEPs127, defende Cesar Benjamim.  
A outra é a reforma da universidade. “Universidade para que?”128 Ora, se “o acelerador da  
história é o saber”129, a “universidade necessária”, imbuída da missão de “pensar o Brasil como  
problema”130, é aquela que, “leal aos padrões internacionais do saber” e nos capacitando a  
124  
Não nos reportaremos à polêmica e decisiva participação de DR, como senador, na  
construção e aprovação da LDB, nem resgataremos o modelo que propõe para a universidade,  
exposto especialmente em “A universidade necessária”, em que pese sua riqueza e atualidade.  
125 “Sobre o óbvio”. In: 1979: 19.  
126 1995: 264. “A primeira necessidade cultural do país é potencializar o país. No dia em que se  
der a todos os brasileiros um curso de primeiro grau completo, vamos ter uma criatividade  
multiplicada. Vamos ter dez vezes mais Oscar Niemeyer e Villa Lobos, porque o domínio do  
instrumento erudito é indispensável para que a criatividade se realize. Nossa criatividade  
prodigiosa se dá em um nível pré-letrado. Temos a festa mais fantástica da Terra. Esse vigor  
brasileiro do carnaval, Iemanjá. Por que o brasileiro, sofrendo fome, miséria, opressão é capaz  
da alegria do carnaval e os alemães são tão tristes e os suecos tão bem alimentados se  
suicidam? O que ocorre aqui? O que dá a esse povo esse vigor? Explode de criatividade,  
formas, músicas, ritmos, alegria de viver. No dia em que essa gente estiver armada do  
instrumento erudito vai ser muito maior” (Zarvos, 2007: 150).  
127  
“Onde a criança entra e toma café da manhã, almoça, janta, estuda, faz esporte, depois  
toma banho e volta para casa. (...) A tarefa mais difícil da implantação dos CIPES foi a  
preparação de milhares de professoras em cursos intensivos para se capacitarem a exercer o  
magistério em escolas de dia completo” (1997: 476).  
Uma avaliação crítica das razões que levaram este arrojado programa ao colapso e  
descontinuidade encontramos em Candido Alberto Gomes (2010). Gomes destaca a  
identificação dos CIEPS como demasiadamente ideologizada e partidarizada (ficaram  
conhecidos domo “Brizolões”); sua fragilidade política e institucional pois dependente do  
voluntarismo e gestão centralizada, a qual se impôs face ao caráter de urgência adotado para  
implantá-lo em tempos curtos, tornando-o desencravado da burocracia tradicional (que  
kafkianamente o digeriu ...).  
128 Título do discurso proferido na posse de Cristovam Buarque como reitor da UnB em 1985.  
129 2015: 238.  
130 2015: 224.  
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dominar o conhecimento humano, enfrente a guerra contra o atraso e ajude o povo brasileiro a  
realizar seu destino. A universidade está, pois, no centro da utopia darcyana como instituição  
que viabiliza ancorar as inelutáveis dinâmicas civilizatórias com as urgentes mudanças de  
nossa sociedade.  
Inúmeras vezes DR recusou-se a aceitar a “universidade de mentira”131, alienada, em que  
acadêmicos perdem tempo pesquisando temas cada vez mais particulares e irrelevantes...  
Questionou ironicamente “a praga da macaqueação”, aquela onde “cavalos-de-santo”,  
compostos pelos que buscam uma “rápida carreira acadêmica” e, “dissuadidos de estudar  
qualquer tema socialmente relevante”, tornaram-se “porta-vozes de prestigiosos mestres  
estrangeiros”, com alguns alcançando “o virtuosismo de ventríloquos”, apenas “a ruminar todo  
pensamento já pensado”132.  
“Até supostos marxistas entram na dança produzindo uma literatura marxológica de  
perfeita assepsia revolucionária. Uns, ao compasso althusseriano, convertem o  
marxismo numa escolástica exegética ...”133  
.
Esta postura combativa lhe trouxe muitos dissabores, especialmente junto à sua comunidade  
de origem, os antropólogos. Recorrentemente Ribeiro denunciou uma “etnologia  
aparentemente científica” que, “estudando parentescos, mitologias ou colecionando artefatos” e  
outras “bizarrices etnográficas”, tinha “total descaso pelo trágico destino dos índios”134. Com a  
alegoria da “teoria do bombardeio de Berlim”, Darcy proferiu, numa épica entrevista, uma ácida  
crítica aos “antropólogos infiéis aos povos que estudam”: “desinteressados pelo índio como  
destino” acabam tornando-se “gigolôs de índios”135. Acusou-os de parecerem inscientes de que  
os índios estão debaixo de circunstâncias ainda piores que os vividos pela população de Berlim  
ao final da Segunda Grande Guerra136. Como era de se esperar, tais críticas lhe geraram um  
profundo isolamento e ruptura com a comunidade antropológica brasileira137 ...  
131  
Onde “a ciência é uma atitude charlatanesca, de gente que escreve discursos uns para os  
outros, com a finalidade de fazer sua carreirinha, e o compromisso com a verdade é muito mais  
formal que verdadeiro” (1979a: 95).  
132 “Três pragas acadêmicas”. In: 1979: 261.  
133 Três pragas acadêmicas”. In: 1979: 263.  
134 2022: 64-65.  
135 1979a: 90; 98.  
136 “O objetivismo cientificista é tão burro para com o índio, é como se alguém decidisse estudar  
em 1945 a forma da família alemã e a moral alemã em Berlim. Em Berlim, 1945, debaixo das  
bombas, destruída dia e noite, não havia condição nenhuma de se estudar a forma nem a  
moral da família alemã. Debaixo daqueles bombardeios não havia instituição social, ou  
nenhuma moral, que se pudesse manter. Os índios brasileiros estão vivendo como quem se  
encontra debaixo de um bombardeio. (...) Considerar que os costumes que se observam agora  
são os costumes tradicionais, sem se interessar pelo destino, a condição de vivência, a  
opressão que está sofrendo, é também uma atitude anticientífica” (1979a, p.95).  
137  
Talvez seguindo a lição darcyana, a antropologia brasileira a partir dos anos 1980 adentrou  
numa postura mais engajada e comprometida com o destino das etnias índias, inclusive agora  
com uma nova geração de antropólogos de origem indígena, como Gersen Baniwa.  
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4. Utopia selvagem.  
“Se não temos utopias, se não temos capacidade de imaginar um futuro melhor conforme  
nossa realidade, estamos rendendo-nos à perda de nosso futuro, o nosso, e estamos  
aceitando um futuro imposto. Se o passado nos foi imposto, não podemos aceitar que o futuro  
também nos seja imposto” (Guilhermo Bonfil Batalla).  
A Amazônia, “o maior desafio que o Brasil já enfrentou”, é uma excelente tradução daquele  
potencial brasileiro que Darcy descortina. A “loucura ecológica” de ocupar a Amazônia  
“matando a mata” e eliminando populações indígenas chamou a “atenção do mundo”138. Este  
reposicionamento geopolítico da Amazônia, nítido pelo menos desde o assassinato de Chico  
Mendes, decorre da mutação da relação do ser humano com a Terra, a qual foi assim expressa  
por DR:  
“Ultimamente, viemos todos tomando consciência de que o mundo é um único  
ecossistema interativo. Nele, terras e mares, ilhas e continentes, florestas e desertos,  
com suas floras e faunas, se integram numa interdependência simbiótica em que todos  
e cada um dependem de todos e de cada um. Neste complexo vital, a imensa  
Amazônia se destaca, assinaladamente, como pedaço grande e precioso de nosso  
nicho, o planeta Terra, berço de todos os homens”.139  
Aqui ele pontuou que, sem diagnosticar o entrelaçamento predatório da economia mundial com  
as florestas tropicais, o “mundo dos ricos” nos acusa de sermos  
“incapazes de preservar uma natureza valiosíssima para toda a humanidade. (...) A  
preservação da floresta amazônica, como parte substancial do patrimônio natural de  
toda a humanidade, é uma tarefa coletiva para a qual todos podem colaborar. O  
inaceitável é a insensatez de fazer dessa salvação um logro espoliativo. O desafio que  
o Brasil enfrenta nesse campo é o de criar uma civilização tropical, realizando as  
infinitas potencialidades energéticas e produtivas da floresta amazônica. Nisso é que o  
BNDES deveria concentrar seus recursos e sua equipe ...” (grifo nosso)140.  
O Brasil,  
“que fracassou frente à civilização industrial, tem que ousar no pensamento e na ação”.  
Hoje “é a história que nos bate à porta. (...) Conforme a conduta que tivermos, seremos  
amanhã uma nação independente e próspera dentro da futura civilização, ou iremos  
amargar o papel subalterno e servil de um novo proletariado externo”141  
.
Com clareza, repetia que um país do tamanho do Brasil, com  
“40% dos trópicos úmidos do planeta, tem o dever e a necessidade de dominar as  
equações tecnológicas fundamentais adequadas ao seu programa de  
e
desenvolvimento autônomo. (...) [Temos] não só a possibilidade concreta, mas também  
a missão histórica de fazer-se uma sociedade vanguardeira”.142  
Os recentes desdobramentos da atual revolução tecnológica levam cada vez mais a muitos143  
anunciar, assim como Darcy, que o Brasil tem vitalidade para estar na vanguarda da  
humanidade nesta grande transição tectônica imposta para corrigir o desajuste entre a  
sociedade humana e o planeta. A virulência deste desajuste é a ameaça central para a  
138 “A Amazônia e seus povos”. In: 2015: 130-132.  
139 “A Amazônia e seus povos”. In: 2015: 133.  
140 2015: 25.  
141 “O Brasil no mundo”. In: 2015: 29.  
142 “O Brasil em causa”. In: 2015: 56-57.  
143  
Entre os economistas brasileiros contemporâneos, destacamos Giannetti da Fonseca  
(“Trópicos utópicos”, 2016) e Jorge Caldeira (“Brasil: paraíso restaurável”, 2020),  
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sobrevivência de nossa espécie. Enfrentá-lo vem impulsionando o advento de um outro padrão  
técnico de baixo carbono que busca induzir uma descompressão sobre o sistema Terra,  
conjugado com um modo de organização societário que, reduzindo a abissal desigualdade,  
alavanque a expansividade criativa e intensifique a alegria de viver.  
Ainda que plenamente sintonizada com os tempos antropocênicos que regem o século XXI,  
uma “utopia ecológica” pode parecer, para alguns, ilegítima e contraditória diante do marco  
interpretativo da história cunhado por Darcy forjado em torno da potência imperativa da  
tecnologia.  
Primeiramente, cabe contrapor que DR não chegou a identificar a revolução tecnológico-  
energética de baixo carbono hoje em curso que, progressivamente, vem superando o padrão  
fóssil que ergueu as revoluções industriais conhecidas. Como é obvio, o novo paradigma  
energético imbrica-se, metabolicamente, com a visão ecológica de modelar a sociedade. De  
qualquer forma, o mais importante é que, como visto acima (na apresentação dos “estudos  
civilizatórios”), o modelo civilizatório de Ribeiro enquadra o imperativo do impulso tecnológico  
de modo não teleológico ou mecanicista: se ele nos dita um “destino comum”, não age, todavia,  
como uma “força homogeneizadora nem fatalista”144  
.
Recapitulando: na sua obra mestra, “O processo civilizatório”, o sistema tecnológico se  
apresenta conectado com os sistemas sociais e ideológicos de cada sociedade, adaptando-se  
diferencialmente conforme as culturas. Aqueles povos que dele se apropriarem  
soberanamente, “evoluirão por processos de aceleração”, podendo haver distintas civilizações  
para um mesmo patamar tecnológico. Os processos civilizatórios sempre operaram  
simultaneamente dinâmicas de homogeneização e diversificação, mas, modernamente, as  
forças homogeneizadoras prevaleceram com a expansão global da formação social europeia  
ensejada pela Revolução Industrial nela ocorrida. Contemporaneamente está chegando “ao fim  
tanto o velho processo de integração por europeização, como também o de uniformização  
compulsória por deculturação”145  
.
Portanto, “a evolução humana não implica numa ocidentalização compulsória do homem”, ou  
seja: como a modernidade não é una, mas múltipla, despontam na contemporaneidade outras  
expressões civilizatórias que estão reduzindo a Europa “ao minúsculo promontório asiático  
reclinado sobre a África que ela é”146.  
Coerente com seu “processo civilizatório” desprovido de caráter economicista, ao final de sua  
obra Darcy explicitou que, após “compor toda uma vasta teoria da história (...) devo confessar  
que as grandes sequências históricas, únicas e irrepetíveis, em essência são inexplicáveis”147.  
Darcy, ao apontar a existência de tendências no processo histórico, nunca afirmou que o  
mesmo fosse predeterminado por leis, as quais ele nunca indicou ou prenunciou existirem, o  
que tornaria as pessoas meros autômatos desprovidos de liberdade. Como ele mesmo  
percebeu, este também é o núcleo ontológico do método freyreano:  
“A teoria subjacente da obra de GF parece ser a da causação circular (...). A ideia  
básica aqui é a de que, como tudo pode chegar a ser, em dadas circunstâncias, a  
causa de qualquer coisa, não há na verdade nenhuma causa suficiente de nada”148.  
São muitos149 os que hoje se juntam a Darcy e Freyre na ruptura com os esquemas etapistas e  
mecanicistas do processo histórico, distanciando-se assim da arrogância humana que imperou  
na vertente hegemônica do iluminismo europeu. Se sabemos que até as leis da natureza  
possuem um caráter aproximativo e “não são absolutamente certas”150, é cada vez mais  
144 1979: 41; 184.  
145 1979: 185.  
146 1979: 184-185.  
147 1995: 269.  
148 1979: 78.  
149  
Entre tantos, destacamos, pela extrema afinidade com os trabalhos de Darcy, apenas aos  
Davids Graeber e Wengrow (2022), cuja recente, mas já muito reconhecida, obra não o cita ...  
150 Sagan, 1996: 41.  
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irrazoável se deixar aprisionar pela armadilha mecanicista que expropriou dos seres humanos  
a condição de sujeito. Assim, reconhecem que a única coisa certa é que o futuro é incerto e  
imprevisível, devolvendo nossa plena humanidade, ancorada na capacidade de escolher entre  
alternativas e mudar nossa realidade. Os humanos tanto são “agentes quanto pacientes”,  
“protagonistas e vítimas” dos processos históricos151. Existem dilemas e escolhas: cada  
geração faz as suas, e, assim, edifica novos mundos.  
“Falo de civilização autônoma, sem nenhuma pretensão de poderio autárquico. Bem sei  
que este é um mundo só de nações interdependentes. Mas sei, também, que as há  
autônomas, como também as há dependentes. Nós brasileiros podemos optar pela  
autonomia e pela singularidade, em razão de nossa dimensão continental e da  
condição de maior das províncias neolatinas”152  
.
O último capítulo de “O processo civilizatório”, dedicado a desvendar as prenhas  
consequências sobre as sociedades futuras do surgimento da “revolução termonuclear e  
eletrônica”, é encerrado com Darcy examinando os prognósticos futurísticos de Tocqueville e  
Marx. O primeiro, conclui, mostra-se “apreensivo” com um futuro regido por “tendências  
despersonalizadoras e despóticas”. Já o segundo, ao contrário, prefigurou “otimismo” pois  
anteviu a prosperidade como uma “liberação de todas as potencialidades humanas”. Arremata  
então, escancarando o grande dilema civilizatório, que  
“O futuro imediato das sociedades mais avançadas será o de Tocqueville ou o de Marx,  
conforme se desenvolvam as virtualidades de despotismo ou de liberdade de que estão  
prenhes”153  
.
Por fim, cabe dizer que DR discerniu com clarividência que no novo ciclo onde adentra a  
civilização vamos nos tornando “criaturas de nós mesmos”, antecipando o advento do  
transumano. E, em diversas oportunidades, Darcy expressou preocupações com o futuro onde  
o humano será modelado pelo controle científico cada vez maior sobre os processos vitais. Nas  
vezes que apresentou sua visão prospectiva do ser humano, como nos artigos “Venutopias  
2003”154 e “O abominável homem novo”155, considerou a possibilidade de suceder um tipo de  
transumano projetado, programado, prescrito e mecanizado: “e ele nos assusta”156, revela.  
Também quando trouxe um estudo prospectivo sobre a Suíça157, Ribeiro comparou os  
helvéticos com os xinguanos, mostrando que ambos são “um conglomerado de gentes que,  
sem necessidade de teorias do Estado, aprenderam a conviver uns com os outros”. Seus  
modus vivendi, onde povos distintos “cercados de poderosos vizinhos” se aprestam “para viver  
em paz” e coexistem sem “formas opressivas de convivência”, são “pertencentes à civilização  
do futuro”.  
“O fundamento da Liga Xinguana e da Confederação Helvética é o cimento cívico-  
étnico que funde as maiores forças de vinculação de comunidades humanas”.  
O feito dos cantões suíços de abandonar  
“quaisquer pretensões hegemônicas a fim de criarem coletivamente o espaço político  
institucional comum é uma façanha tão inverossímil que seria incrível e até impensável  
se a história não a tivesse gestado. Entretanto, como também os xinguanos o  
151 1979: 31.  
152 2015: 21.  
153 1987: 193-194.  
154  
Fruto do convite dos venezuelanos, em 1973, para escrever sobre os próximos 30 anos da  
Venezuela.  
155  
Escrito em 1972 a convite de um jornalista italiano, que indagou a intelectuais de diversos  
países sobre como seria o homem do futuro.  
156 1979: 30.  
157  
Ao comemorarem 700 anos de vida, a Suíça convidou, em 1992, dez intelectuais dos  
diversos continentes para expressarem o que pensavam deles. Um foi Darcy.  
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alcançaram, devemos convir que esse é um caminho viável, ainda que muito raro e até  
espantoso”.158  
Assim, face ao transumano sintético, Darcy escolheu contrapor uma “utopia estética”, e para tal  
há que se “inspirar nos índios”. Formula então sua “utopia selvagem”: guiado pela vontade de  
beleza e com acesso ao saber acumulado da humanidade, Darcy visualiza um ser humano que  
satisfaz o “profundo desejo humano de uma existência pastoril”159  
.
Na utopia darcyana da “existência pastoril”, conforme apresentada aos venezuelanos em 1973,  
os humanos estão “dispersos na imensidade de uma floresta tropical”, e organizam sua vida  
não mais regidos por propósitos utilitários, mas pela busca do que “embeleza, dignifica e  
gratifica”. Esta tradução societária do potencial humano é a contribuição dos morenos povos  
tropicais latino-americanos, tendo o Brasil aqui um papel primordial para adentrar nesta  
direção.  
Futuricidade.  
“Forças internas e externas mancomunadas perseguem, violentam, torturam, censuram e  
trucidam aos melhores e mais lúcidos de nós. Mas, continuamos combatendo e na luta  
encontramos a substância e a identidade que buscávamos. Somos hoje os povos que se  
armam com projetos de si mesmos, como povos que querem existir para si próprios. Somos os  
que faremos as revoluções postergadas. Somos os que cremos e atuamos. Somos os que não  
temos passado. Temos futuro” (1979: 37).  
Um povo tristonho, sem autoestima, que se deprecia achando-se inferior, inapto para o  
progresso e de uma “fealdade inata”, torna-se um povo terminal, perdido, sem um elã vital, sem  
chamas capazes de incandescer as gerações presentes e futuras. Todos os povos para  
sobreviverem e se superarem carecem de um sentimento de dignidade, de um objetivo, de um  
sentido de missão, de sonhos160.  
Como é sabido, “as nações se desenvolvem criando, além da riqueza, mitos”161, em geral mitos  
de origem. Com Gilberto “o Brasil ganha um passado”162. Todavia, Freyre quase não fala de  
futuro, pois “escreve contra o seu tempo”163, resistindo à modernidade e seu ímpeto  
desenvolvimentista, uma vez que a expansão capitalista, com sua racionalidade instrumental e  
moral vitoriana, erodirá as bases do patriarcalismo brasileiro.  
Darcy, ao contrário, sem lamentos sentimentais, compreendeu que Povos Novos não têm  
apegos nostálgicos, pois são povos em fazimento, “uma espécie de povos tábua rasa,  
deserdados”. Assim, formulou que “desapegados de passados sem glória nem grandeza, eles  
só têm futuro. Sua façanha não está no passado, mas no porvir”164. Com a clareza de que  
“estamos abertos é para o futuro”165, e retomando seu vislumbre do amanhecer da “América  
morena”166, Ribeiro nos dota de um mito fundamental (sem o qual os povos não subsistem,  
sem o qual nosso fazimento não se completa), um mito de futuro, esculpido nas últimas linhas  
de “O povo brasileiro”:  
158  
“A Suíça e a suicidade”. In: 2015: 136-139.  
159 1979: 47.  
160  
Eduardo Giannetti vem enfatizando que “a lógica sozinha não move: a criação do novo  
exige sonho” (2016: 170). Segue na linha schumpeteriana, mesmo sem citar Schumpeter,  
sobre o sonho como impulsionador da inovação e da ação empresarial.  
161 Cardoso, 2013: 65.  
162 Reis 2007: 81.  
163 Araújo, 2009: 205.  
164 2022: 136.  
165 1995: 448.  
166 2007: 78.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
“Somos é a nova Roma. Uma Roma tardia e tropical. O Brasil é já a maior das nações  
neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sêlo também por sua criatividade  
artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização,  
para se fazer uma potência econômica, de progresso autossustentado. Estamos nos  
construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e  
tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque  
incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com  
todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa  
província da Terra”167.  
Epílogo.  
“Darcy anuncia a civilização brasileira. Nesse sentido, creio que ele fecha esse grande ciclo de  
reinterpretação do Brasil propondo um lugar para o Brasil no mundo. Completa-se, assim, uma  
certa ideia de Brasil. Esse esforço que nos conduziu a formar uma ideia de Brasil é um esforço  
decisivo para nossa história. Se nós não tivermos uma ideia de Brasil, não temos pelo que  
lutar; sem isso, o Brasil não tem significado, não tem sentido e não tem proposta e, então, não  
tem por que existir também. Darcy foi aquele que fechou essa ideia de Brasil, colocando a  
carne e a alma do país na nossa frente, que é o conceito de povo brasileiro. É um conceito que  
não podemos perder. Se perdermos esse conceito, o Brasil não tem sentido” (Benjamin, 2022).  
Diante de um mundo onde “milhões de netos de Lênin engordam e esperam a guerra do fim do  
mundo”168 premonitório? a utopia tropical darcyana não se apresenta como um vislumbre  
obsoleto, pelo contrário, revela-se mais que madura e exigida para o enfrentamento dos  
dilemas do Antropoceno deste século XXI. A potência do seu vaticínio não resulta de mera  
futurologia à lá Nostradamus, mas deriva do sólido ancoramento em denso modelo teórico e de  
uma profunda vivência transcivilizatória.  
Parte deste ancoramento é que sua obra, mormente “O povo brasileiro”, desponta como  
culminância de toda uma geração que se dedicou a “pensar o Brasil”. Como vimos, aliás, esta  
é a tese de Cesar Benjamin, retomada na síntese mais-que-perfeita exposta no epígrafe acima.  
Se já registramos o permanente diálogo com Gilberto, seu não revelado terceiro alter ego, bem  
como o comparecimento de Capistrano e Bomfim, nela também é nítida, e explícita, a presença  
de Euclides da Cunha, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Simonsen, Celso  
Furtado, Florestan Fernandes  
e
Antonio Cândido, especialmente, os quais estão  
meticulosamente costurados e conjugados.  
Como igualmente demonstramos, os caminhos que Darcy trilhou ao longo de sua vida  
dedicada a entender o Brasil também se ancoram em um horizonte que nunca se limitou ao da  
“questão nacional”. Ao invés de ficar provincianamente restrito à vida interna nacional, sua  
busca por explicar o Brasil se funda numa análise do processo civilizatório, conjugando a  
nação com sua inserção econômico-histórica universal. Isto confere à sua obra uma extrema  
atualidade e vigor, pois, dentro do enredado mundo globalizado cada vez mais consolidado, um  
projeto puramente nacional-desenvolvimentista tem escassas possibilidades de êxito.  
Tanto o isolamento quanto o ultraliberalismo são suicidas, ambos não propiciam superar o  
subdesenvolvimento e generalizar a prosperidade a todos os brasileiros. Assim como a  
América do Norte e a Austrália, temos, recomendava Darcy, como economias situadas no  
mercado, de saber “tirar proveito do capitalismo”. Se não somos como eles “meros transplantes  
sensaborões da Europa”, reunimos “condições de repetir a façanha graças à nossa  
disponibilidade de recursos naturais, terras agriculturáveis e mão de obra qualificada”169  
.
167 1995: 449.  
168 1979: 34. Estas palavras foram escritas há exatos 50 anos.  
169 “O Brasil como problema”, in: 2015: 48.  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025  
É esta densidade conceitual e amplitude de visão que alavanca sua obra-testamento, “O povo  
brasileiro” – sua “declaração de amor maior pelo Brasil”170 alçando-o como um dos clássicos  
do panteão nacional. “Grandes clássicos” são aqueles que, mais que respostas do passado,  
não se intimidam diante da missão vital de reinventar outro futuro que plenifique os potenciais  
incubados na longa história do nosso sofrido povo-nação, produzindo assim a revolução  
necessária. E isto seu magistral e lúcido painel nos brinda.  
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Apêndice:  
“Após terem metralhado um grupo de índios acampados junto a um rio, os homens da  
expedição ouviram um choro de criança, abafado pela mão da mãe. Para os que deviam voltar  
na manhã seguinte com a missão cumprida, aquele pequeno ruído mostrava que o serviço não  
fora perfeito. Rapidamente eles acendem as lanternas e saem vasculhando o mato. Sob dois  
corpos crivados de balas estavam escondidas mãe e filha. Os homens que as encontraram  
fizeram uma festa. Dois tentavam violentar a mulher e um beliscava a garotinha que chorava,  
vendo a aflição da mãe. Em volta, fechando o círculo, o grupo se divertia. Nas mãos dos dois  
nordestinos fortes a mulher índia se debatia. Nesse instante, aproveitando um descuido, a  
criança libertou-se, correu em socorro da mãe e, com raiva, mordeu a perna de um dos  
homens. A mulher em pânico tentava cuidar da menina e, ao mesmo tempo, livrar-se dos  
homens que a violentavam. O homem com a perna mordida foi substituído por outro, afastou-  
se da índia e com ódio começou a estrangular a criança. Alguém, querendo terminar com o  
espetáculo paralelo que atrapalhava o primeiro, tomou a menina das mãos do seu  
estrangulador e lhe deu um tiro de pistola 45 na cabeça. A testa da garotinha explodiu e o  
sangue salpicou a roupa dos que estavam em volta. Vendo a filha morta, a mulher não resistiu  
e desmaiou. Indefesa nas mãos dos chacinadores, a índia foi violentada por todos e depois  
retalhada a facão” (Ronald Carvalho, apud Ribeiro: Os índios e a civilização, 190).  
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-26, 2025