neles são possibilidades de superação do modo de produção capitalista. Porém, a força do
neoliberalismo também marcou o período e os governos a ponto de terem de fazer concessões
à voracidade do capital que assumiu na região características extrativistas e de despossessão.
As contradições presentes nos governos da onda progressista latino-americana não
invalidaram a força presente nas políticas de bem viver e de economia solidária. Foi nesse
período que reapareceu a utopia de Outros Mundos Possíveis, como marca dos Fóruns Sociais
Mundiais. Porém, a ação do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) em Chiapas –
México, em 1994, representou o primeiro grande marco a abrir fissuras no neoliberalismo.
Não basta desnaturalizar o capitalismo, nem liberar nosso imaginário para sair do egoísmo
totalizante do neoliberalismo e sim apontar, aqui, como podemos transitar num circuito de
ações, produções, práticas e concepções que não são organizadas pela lógica do capital.
O contexto do período foi de governos progressistas em muitos países da América
Latina, sendo que em alguns deles houve novas Constituições, como Bolívia (2009), Equador
(2008) e Venezuela (1999). Segundo Natanson (2022), a chamada nova esquerda latino-
americana começou com Hugo Chávez, em 1999, na Venezuela, depois Lula, em 2003, no
Brasil, Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia, até chegar a governar toda a
América do Sul com exceções de Colômbia e Peru. Para o autor, após essa ascensão, a
esquerda foi derrotada por eleições em Argentina, Uruguai e Chile; por golpes em Paraguai,
Brasil e Bolívia; ou, se manteve no poder, mas com uma guinada autoritária em Venezuela e
Nicarágua. Recentemente, a esquerda volta ao poder, conclui o autor, como “autoritária” na
Venezuela e na Nicarágua, em países não governados antes pela esquerda em Honduras, Peru
e Colômbia (antes da eleição de Gustavo Petro) e em retorno em Argentina, Bolívia, Chile e
Brasil (antes de confirmar-se a eleição de Lula).
Especialista em economia solidária, Coraggio (2015) apresenta variantes de sua
institucionalização em cinco processos nacionais-populares de “governos de nova esquerda”:
Bolívia, Equador, Venezuela, Argentina e Brasil. Para o autor, a economia social e solidária
deve garantir democraticamente os direitos humanos, a vida em comunidade, os valores de
justiça social e a relação com a natureza como condição de vida, relação que atualmente na
América Latina tem sua máxima expressão no bem viver, denominado assim em diferentes
línguas ameríndias (Coraggio, 2015, p. 76). Analisa traços em comum nas políticas dos cinco
países estudados: importantes redistribuições de recursos monetários aos mais empobrecidos
devido ao neoliberalismo e promoção de serviços públicos (saúde, educação, alimentação
etc.). Apesar das disputas de nomes – economia social, economia solidária ou economia social
e solidária – as políticas foram limitadas à promoção de programas de geração de micros-
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-16, 2025