Eles não são nem conscientes que são quilombolas, e, quando falamos nisso, os
maiores de 4 anos já não aceitam. E por isso eles podem perder as oportunidades de
crescimento. E esse ensinamento tem que ser desde pequeno, porque se eles forem
educados sabendo da sua origem, da comunidade e os direitos dados pelo governo,
eles vão crescer muito, e isso é muito importante14.
Na verdade, acho que isso não é trabalhado, faltou a conscientização na parte da
escola, faltou a comunidade também ajudar, porque, para eles, ser quilombola soa
feio, apesar que na escola a professora que eu conversei que ela já fez esse trabalho.
É uma professora que gosta, assume sua identidade que é quilombola. Porque eles
sentem vergonha de sua raça. Acho que tem que ter o conteúdo, planejamento para
trabalhar isso. As crianças não se reconhecem enquanto quilombola e às vezes nem
como negras; para elas, o negro é aquele negro escuro, e eles se consideram morenos15.
Nos relatos apresentados pelas professoras, percebem-se alguns equívocos que são
cometidos e construídos para silenciar o racismo sistêmico existente na sociedade, como no
caso da questão de o negro ser racista com ele mesmo, por não se reconhecer como tal. Assim,
entende-se que o racismo é significação de poder, imposto a fim de coisificar aquele que é tido
como inferior, para o manipular. Dessa forma, a concepção da identidade que é colocada nessas
falas refere-se à identidade como inata ao sujeito, quando se sabe que, ao contrário disso, ela é
construída. Então, as estratégias para ressignificação da identidade quilombola, devem ser
traçadas pelas práticas educativas escolares das professoras, com projetos, conversas, trabalhos
pedagógicos, etc., para subverter essa realidade. Segundo Campos (2014, p. 18):
A ideia ou conceito de Educação enquanto parte ou totalidade da cultura nos leva a
perceber como as práticas sociais estão relacionadas na construção do saber, ao passo
que o ser humano cria e/ou pratica uma ação cultural com o mundo e os outros sujeitos
sociais ele também se desenvolve da sua interação com a sociedade. Nesse aspecto, a
Educação deve ser vista como parte da organização social e fruto da situação
histórico-social da humanidade, pois é elemento do processo cultural. E a transmissão
de cultura está presente em diversas relações da realidade social, como: suas crenças,
seus valores, seus hábitos, seus costumes, suas atitudes e seus desejos que evidenciam,
além de suas práticas, seu caráter simbólico expresso no ambiente social.
Quando foi perguntado se a escola desenvolve algum projeto pedagógico que aborde as
questões da identidade quilombola, as professoras apontaram que a escola ainda não apresenta
perspectivas educacionais como estas. No entanto, elas estão desenvolvendo estudos na
comunidade para começar a trazer essas questões para a sala de aula.
Em uma das visitas feitas à comunidade, houve uma reunião com as professoras das
escolas quilombolas das comunidades que atendem ao território de Guajará-Miri e Itacoã, para
arquitetar um novo quadro de organização de horário docente, de acordo com o qual, às sextas-
feiras, as professoras disponibilizariam de um tempo específico para organizar seus planos de
aula, elaborar projetos, articular com os moradores a criação do Projeto Político Pedagógico
14 Professora Ana em entrevista realizada em 11 de setembro de 2016.
15 Professora Carla em entrevista realizada em 11 de setembro de 2016.
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, p. 1-18, 2025