APRESENTAÇÃO

 

A Universidade da Amazônia (UNAMA) está publicando o primeiro número da revista acadêmica Solidariedade e Sustentabilidade exatamente quando se inicia em Belém do Pará a COP30, uma atividade da Organização das Nações Unidas carregada de simbolismos e desafios.

A COP30 trouxe para o coração do Brasil, e da Amazônia, a discussão entre os governos e a sociedade civil sobre o nosso futuro comum. Essa discussão é inadiável e fundamental porque estamos perdendo a guerra contra as consequências climáticas do nosso modode vida que gera o  aquecimento  global,  impactando  sobre  a  economia,  a  qualidade  de  vida  da  maioria  e  até  à justiça e a democracia; pois a concentração de renda, riqueza e poder atinge patamares que, assim como o aquecimento global, colocam a civilização humana em risco. O tempo tem sido implacável em nos mostrar o que acontece quando não agimos racionalmente a partir da ciência e do conhecimento vivo das comunidades, inclusive as ancestrais.

O  Brasil  tem  autoridade  científica  e  moral  para  indicar  caminhos  para  uma  humanidade amedrontada  com  as  catástrofes  que  podem  advir  de  agir  errado  ou  de  não  agir.  Essa  é  a finalidade de uma COP30 na Amazônia: mostrar que é possível manter a floresta em pé e ao mesmo tempo fazer dela um espaço de produção de riquezas e de uma vida plena de cidadania.

Nunca o conceito de uma sociedade que não produz, e não se reproduz, de modo sustentável, foi  tão  verdadeiro.  Entendemos  a  sustentabilidade  como  a  estratégia  político-econômica  que busca  e  gere  o  equilíbrio  entre  3  dimensões  da  vida:  Econômica,  Social  e  Ecológica.  As sobrecargas sobre a natureza reduzida a recursos, a poluição que confessa a inadequação da tecnologia da indústria e da agricultura tradicionais, assim como o uso de fontes energéticas não renováveis,  promovem  a  destruição  do  ambiente  natural, chegam  ao  ponto  de  termos  que indagar  se  o  retorno  ainda  é  possível.  O  planeta  e  a  civilização  estão  em  desequilíbrio, ameaçando todas as formas de vida, inclusive e especialmente a espécie humana.

É neste cenário que urge a recuperação da ideia de Solidariedade, presente desde a origem da existência humana e nos seres vivos. A Solidariedade deve ser entendida como sinergia, como reciprocidade,  reconhecimento  da  interdependência  entre  os  indivíduos, e  equilíbrio  dinâmico. Nunca a interação que compartilha desejos e interesses, e faz dela uma ação, foi tão importante para a própria sobrevivência da humanidade. Ela está presente em múltiplas culturas e religiões, assim como em diversas teorias clássicas do desenvolvimento da sociedade.

Solidariedade e Sustentabilidade que, para além da ciência, é preciso reconhecer, também estão presentes  nos  fundamentos  do  Cristianismo,  como  destacado  pelo  recém  falecido  Papa Francisco, assim como no Budismo. Indicam que a ciência encontra forte ligaçãocom o religare, a busca da razão existencial que a ciência jamais resolverá.

No Brasil, esta complementariedade entre Sustentabilidade e Solidariedade, fundamenta a busca de novas abordagens da economia como as que se estruturam a parir da primazia do valor e direito  à  vida,  como  a  Economia  Solidária,  baseada  em  nova  ética  produtiva,  distributiva  e  do exercício do Consumo Consciente, que resgata elementos do comunitarismo para a construção de metabolismos plurais e inclusivos, propondo novas estratégias para a economia de escala e as inovações tecnológicas.

A revista Solidariedade e Sustentabilidade toma como ponto de partida a experiência do núcleo embrionário da sua equipe editorial, que visualizou uma lacuna de oportunidade a ser preenchida por esta iniciativa da Universidade da Amazônia. Neste primeiro número apresentamos alguns artigos inéditos, bem como republicamos artigos que também usam a licença Creative Commons. Acreditamos que proporcionar a livre circulação horizontal  de  ideias  faz  parte  da  nossa  responsabilidade  como  trabalhadores  intelectuais  e organizações comprometidas com a democracia republicana.

 

Belém, 06 de novembro de 2025.

 

Betânia Fidalgo

Reitora da Unama

 

Clovis Ricardo Montenegro de Lima

Pesquisador do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação