
Revista Solidariedade & Sustentabilidade, Belém, v. 2, p. 1-33, jan. 2026.
ser replicado em outros cenários, como hoje é o caso da BR 319, mas infelizmente não saiu do
papel.
O Plano BR 163 Sustentável não foi adiante devido à predominância da lógica
desenvolvimentista predatória sobre iniciativas que buscavam uma nova maneira de gerar
desenvolvimento econômico integrado às soluções com salvaguardas socioambientais e ao
bem-viver. Entre as razões que levaram ao fracasso desse plano estão:
● Falta de Integração e Gestão: O plano não conseguiu coordenar os diferentes órgãos
governamentais, resultando em ações desarticuladas e promessas não cumpridas.
Sequer a instalação do Conselho Gestor do Plano foi feita. A proposta de composição
deste conselho seria de 4 assentos para empresários, 4 para trabalhadores, 2 para
entidades socioambientais, 1 para índios, 1 para quilombolas e mais 12 assentos para
representantes do governo. Esta instância poderia garantir uma governança
democrática do Plano, mas que também não saiu do papel;
● A inércia e morosidade no ordenamento territorial e regularização fundiária: Mesmo
com a interdição de milhares de hectares de terras, o governo federal não conseguiu
levar adiante a consolidação das unidades de conservação criadas, a identificação e
homologação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas, bem como a
regularização de terras ocupadas anos atrás por produtores familiares e de boa fé;
● Paralisação de Ações Socioambientais: A falta de capacidade e resolução do governo
federal em resolver pendências administrativas, legais e técnicas entre órgãos
executores paralisou programas essenciais de mitigação ambiental, gerando bloqueios
e protestos de povos indígenas e outros setores da sociedade;
● Logística e Infraestrutura: Durante anos, a obra de pavimentação avançou de forma
lenta e descontínua, gerando gargalos e mantendo impactos socioambientais elevados;
● Impacto Ambiental e Social: A pavimentação acelerou o desmatamento, conflitos de
terra e a invasão de terras indígenas e unidades de conservação, contrariando o
objetivo de desenvolvimento sustentável; e
● O enfraquecimento e falta de prioridade para o PPCDAm: Sem a coordenação pela
Casa Civil e redução orçamentária, o PPCDAm perdeu parte de sua força e
madeireiros, grileiros e a pecuária extensiva e predatória voltaram a ganhar espaço, ao
ponto de, antes mesmo do Bolsonaro assumir o governo, a narrativa predominante
apontava o IBAMA, ICMBio e a FUNAI como os vilões da situação.
Declarações de fazendeiros irregulares, que nunca respeitaram a legislação ambiental e
invadiram terras públicas não destinadas, como por exemplo, áreas na região da Terra do
Meio no Estado do Pará, bem como madeireiros e garimpeiros, acusavam esses órgãos de não
permitirem que pudessem trabalhar para sobreviver e, por meio de ações violentas, passaram a
ser vistos como vítimas da truculência do Estado. (INSTITUTO DE PESQUISA
AMBIENTAL DA AMAZÔNIA, 2005).8
Esse discurso e esse falso sentimento foi muito bem absorvido pelo então candidato à
presidência, Bolsonaro. Uma de suas palavras de ordem era: ...” Se eu ganhar as eleições, não
vou permitir que o IBAMA continue agindo livremente de forma violenta e desproporcional
contra pobres fazendeiros e garimpeiros” (FEARNSIDE, 2022).9